Tem assunto que parece distante do mercado de seguros até a gente perceber que ele está batendo exatamente na porta da proteção. As bets são um desses temas. Durante muito tempo, a discussão ficou concentrada na publicidade, nos patrocínios esportivos, na regulação, nas celebridades e no comportamento de quem aposta. Só que talvez esteja faltando olhar para uma pergunta mais simples e mais incômoda: se tanto dinheiro está indo para as apostas, de onde ele está saindo?
Mais uma vez, o mercado de seguros parece chegar atrasado a uma conversa que já está acontecendo na sociedade. Não porque falte relevância ao setor, mas porque ainda existe uma dificuldade enorme de transformar temas atuais em diálogo público. As seguradoras falam muito bem entre si, nos eventos do setor, nas campanhas institucionais e nas comunicações técnicas. Mas ainda conversam pouco com a população e, muitas vezes, pouco também com os próprios corretores sobre assuntos que atravessam a vida real das pessoas. Publicidade e marketing, nesse contexto, não deveriam servir apenas para vender produto, reforçar marca ou explicar cobertura. Deveriam também abrir conversas. E poucas conversas hoje são tão urgentes quanto a relação entre apostas, saúde financeira e proteção.
O Banco Central estimou que, ao longo de 2024, as transferências mensais para empresas de apostas e jogos de azar variaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões. Em agosto daquele ano, 56 empresas identificadas somaram R$ 20,8 bilhões em transferências recebidas via Pix. O mesmo estudo estimou que cerca de 24 milhões de pessoas físicas fizeram ao menos uma transferência para essas empresas no período analisado. Não estamos falando de um hábito marginal. Estamos falando de um fluxo de dinheiro grande o suficiente para disputar espaço com setores inteiros da economia.
A comparação com o próprio mercado de seguros ajuda a dimensionar o tamanho do fenômeno. Segundo a Susep, todo o setor supervisionado arrecadou R$ 435,56 bilhões em 2024, enquanto os produtos de capitalização arrecadaram R$ 31,80 bilhões no ano. Isso significa que um único mês de bets, na faixa estimada pelo Banco Central, se aproxima de uma parte muito relevante de um segmento inteiro que historicamente conversa com sorteio, prêmio, disciplina de pagamento e expectativa de retorno. A diferença é que, agora, parte desse desejo por sorte e possibilidade foi capturada por plataformas cuja lógica econômica depende da perda recorrente do apostador.
O ponto não é dizer que todo dinheiro apostado deixaria automaticamente de virar seguro, previdência ou capitalização. Essa seria uma conclusão simplista. Mas também seria ingênuo imaginar que esse dinheiro sai de um lugar neutro. Ele sai do orçamento das famílias. Sai do consumo, da conta de luz, da alimentação, da reserva financeira, do planejamento de longo prazo, da previdência privada, do seguro de vida, da renovação do seguro do carro, da proteção residencial e da apólice que fica para depois. A bet não compete apenas com o lazer. Ela compete com o futuro.
Outros setores já começaram a colocar essa conta na mesa. A Confederação Nacional do Comércio estimou que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência do consumidor causada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. A entidade também apontou que o crescimento dos gastos com plataformas eletrônicas superou R$ 30 bilhões por mês no período e que esse movimento pode ter levado 270 mil famílias a uma situação de inadimplência severa. Ou seja, o dinheiro que antes circularia no comércio, no supermercado, na farmácia, na loja de roupa, no celular novo ou no eletrodoméstico passou a ser drenado por uma promessa de ganho imediato.
E aqui está a provocação para o seguro. Se o varejo já sente, se o consumo já sente, se a inadimplência já sente e se a saúde financeira das famílias já sente, por que o mercado de seguros ainda parece reagir pouco a esse risco? Uma publicação do SindsegSP, com base em reportagem do Valor Econômico, registrou que os brasileiros gastaram com bets mais que o dobro do que destinaram a pagamentos de seguros de Vida e Automóveis em 2024. Na mesma matéria, uma diretora da Susep afirmou que o setor precisa se perguntar por que essas pessoas não estão direcionando esses valores para instrumentos que de fato podem protegê-las.
Essa talvez seja a pergunta central. O seguro sempre soube falar de morte, acidente, invalidez, roubo, doença, patrimônio e responsabilidade. Mas as bets colocaram outro risco no centro da vida brasileira: a desorganização financeira provocada pela promessa de ganho rápido. Não é apenas uma discussão moral sobre apostar ou não apostar. É uma discussão sobre orçamento familiar, ansiedade, endividamento, perda de planejamento, abandono da previdência, atraso de contas e redução da capacidade de manter proteções essenciais.
Isso não significa transformar seguradora em fiscal da vida do cliente. Ninguém quer ser vigiado, julgado ou punido por um aplicativo de seguro. O caminho mais inteligente é outro: oferecer uma jornada voluntária de educação, prevenção e recompensa. Um seguro de vida, por exemplo, poderia vir acompanhado de um aplicativo de saúde financeira, com vídeos curtos, simuladores, metas de reserva, alertas em períodos de grandes eventos esportivos e conteúdos que ajudem o cliente a diferenciar torcida de aposta, emoção de renda e entretenimento de risco financeiro.
Essa jornada poderia gerar descontos progressivos, cashback, pontos ou melhoria de assistência para quem completasse etapas de educação financeira, organizasse o orçamento, criasse uma reserva, mantivesse o pagamento em dia ou ativasse mecanismos voluntários de proteção, como bloqueios de transações para apostas em bancos parceiros. Não seria desconto para quem não joga, o que poderia soar invasivo e moralista. Seria benefício para quem escolhe se proteger melhor. A lógica é parecida com programas que premiam direção segura, hábitos saudáveis ou prevenção em saúde. Quem reduz risco, melhora a carteira e preserva a própria proteção.
Também há espaço para uma assistência dentro do seguro de vida voltada aos efeitos do jogo problemático. Não para devolver dinheiro perdido em apostas, porque isso transformaria o seguro em fiador do jogo. Mas para oferecer orientação financeira, apoio psicológico, suporte familiar, reorganização de dívidas e prevenção ao cancelamento da apólice em momentos de crise. A seguradora não deve segurar a aposta. Deve segurar a vida financeira que a aposta ameaça destruir.
Nos períodos de grandes eventos esportivos, essa atuação poderia ser ainda mais ativa. Copa do Mundo, finais de campeonato, Libertadores, Champions League e grandes lutas são momentos em que a emoção cresce e a publicidade das bets se torna mais intensa.
No fim, a pergunta talvez não seja apenas o que as bets estão fazendo com o Brasil. Essa resposta já começa a aparecer nos números, no consumo pressionado, no endividamento e na ansiedade de muitas famílias. A pergunta que ainda falta responder é o que o mercado de seguros está fazendo diante disso.
Porque, se bilhões de reais estão escorrendo para plataformas que lucram quando o brasileiro perde, o setor que nasceu para proteger não pode assistir a esse movimento da arquibancada. Parte desse dinheiro poderia virar proteção familiar. Parte poderia virar seguro de vida. Parte poderia virar previdência. Parte poderia virar reserva. Mas, para isso, o seguro precisa deixar de aparecer apenas como boleto, apólice e promessa distante. Precisa virar jornada, presença, orientação e experiência.
As bets capturaram o desejo de ganhar. O seguro precisa capturar o desejo de não perder tudo.
