Toda estreia carrega um peso diferente. Não importa se estamos falando de Copa do Mundo, de um jogador entrando em campo pela primeira vez ou de alguém começando uma nova fase profissional. Estreia mistura expectativa, ansiedade, medo, cobrança e esperança. Antes de a bola rolar, muita coisa já acontece por dentro. Vem o frio na barriga, a insegurança, a dúvida se estamos preparados e o medo de não corresponder ao que esperam da gente — ou ao que nós mesmos esperamos de nós.
Neste sábado, o Brasil estreia na Copa do Mundo contra o Marrocos. E, como toda estreia da Seleção, parece que o país inteiro entra em campo junto. Tem quem esteja confiante, tem quem esteja desconfiado, tem quem já cobre resultado antes mesmo do primeiro passe e tem quem olhe para o adversário com preocupação. A estreia tem esse poder de revelar sentimentos que estavam guardados. Por mais preparo que exista, o desconhecido sempre traz algum tipo de medo. O plano pode estar montado, o treino pode ter sido feito, a estratégia pode estar clara, mas só a estreia transforma preparação em realidade.
Quando penso em estreia, não penso apenas em futebol. Penso também na minha própria trajetória. Lembro da primeira apólice que vendi. Foi para a mãe de uma ex-namorada. Até hoje ela é minha cliente. Na época, eu não sabia praticamente nada de seguro. Trabalhava na parte administrativa de uma corretora e ainda não me via como alguém preparado para vender, orientar um cliente ou assumir uma carteira. Eu conhecia os bastidores, mas estar na linha de frente era outra coisa. Lembro da insegurança, do medo de falar errado, de não saber responder, de parecer despreparado. Perguntei muito a uma funcionária da área comercial, porque eu realmente precisava aprender. Respirei fundo, corri atrás, fui entender, fui montar a proposta e fui buscar segurança onde ainda existia dúvida.
Aquela venda não foi apenas a emissão de uma apólice. Foi uma estreia. Foi a estreia da primeira venda, do primeiro cliente, da primeira vez em que precisei sair da parte administrativa e me colocar diante de uma oportunidade comercial. Foi ali que entendi, na prática, que vender seguro não era apenas preencher dados, calcular preço ou emitir uma proposta. Era orientar, transmitir confiança, entender a necessidade de alguém e assumir responsabilidade por aquilo que estava sendo oferecido.
Depois, veio outra estreia: a escolha de começar a trabalhar como produtor autônomo. Ali, o desafio era ainda maior. Era entender que, dali em diante, minha renda dependeria diretamente do número e da qualidade dos negócios que eu conseguisse fechar. Construir uma carteira deixou de ser teoria, discurso bonito ou desejo de crescimento. Virou prática, disciplina, relacionamento, persistência e, muitas vezes, sobrevivência. O medo era real. Medo de não conseguir vender. Medo de não saber o suficiente. Medo de depender de mim. Medo de começar e não dar certo. Medo de olhar para frente e não saber como, de fato, eu conseguiria construir uma carteira.
Hoje, olhando para trás, vejo que aquela insegurança não era fraqueza. Era responsabilidade. Eu não estava pronto para tudo, mas estava disposto a aprender o necessário para dar o primeiro passo. E talvez toda estreia importante seja assim: a gente nunca entra sabendo tudo, mas entra com o que conseguiu construir até ali — preparo, coragem para perguntar e vontade de fazer melhor.
No mercado de seguros, a venda é só a parte visível do jogo. Antes dela, existe estudo, tentativa, dúvida, erro, cotação refeita, cliente que não responde e muita insegurança silenciosa. Mas, quando chega a hora de falar com o cliente, ele precisa sentir segurança. E segurança não se improvisa. Ela pode aparecer na fala, mas só se sustenta no preparo.
A ansiedade, portanto, não é o problema. Muitas vezes, ela só mostra que aquilo importa. O problema é deixar o medo virar trava. Trava para oferecer um produto novo, para falar de preço, para ligar para um cliente, para mudar um processo, para crescer. A estreia revela exatamente isso: o que a gente preparou, o que evitou e onde ainda falta confiança.
Mas ninguém precisa estrear perfeito. Nem o Brasil precisa resolver a Copa inteira no primeiro jogo, nem o corretor precisa resolver a carreira inteira em uma única ação. A estreia pede presença, preparo e coragem para começar.
E essa reflexão ficou ainda mais viva para mim nesta semana, porque, quase 20 anos depois daquela primeira apólice, vivi mais uma estreia: começar uma jornada de mentoria para outros corretores. E, de certa forma, isso sempre fez parte de mim. Desde quando comecei a trabalhar na primeira corretora, eu sempre gostei de ajudar, trocar ideia, explicar o que eu sabia, passar conhecimento e contribuir para que outras pessoas conseguissem enxergar caminhos com mais clareza.
Mesmo assim, transformar isso em uma mentoria é uma nova estreia. Uma coisa é ajudar no dia a dia, em uma conversa, em uma dúvida específica. Outra coisa é organizar o que aprendi ao longo dos anos, transformar experiência em método e fazer outras pessoas entenderem aquilo que, para mim, hoje parece claro. E aí o frio na barriga volta. Volta o medo de não conseguir transmitir da forma certa, de não gerar o resultado esperado, de aquilo não funcionar como imaginei.
É curioso perceber que, mesmo depois de tanto tempo de mercado, a estreia continua nos visitando. Ela só muda de forma. Antes, era a primeira apólice. Depois, foi a decisão de viver da própria produção e construir uma carteira. Agora, é o desafio de ensinar de forma mais estruturada aquilo que aprendi na prática.
Talvez essa seja uma das grandes verdades da vida profissional: quem continua crescendo continua estreando. Só não sente mais frio na barriga quem parou de se desafiar. A diferença é que, com o tempo, a gente aprende a olhar para o medo de outro jeito. Ele deixa de ser um sinal para desistir e passa a ser um sinal de que estamos entrando em um território novo.
No fim, toda estreia carrega um pouco de medo. E tudo bem. O desconhecido assusta porque ainda não temos memória de vitória nele. Depois que atravessamos, ele vira experiência. A primeira apólice vira história. O primeiro cliente vira relacionamento. A primeira venda vira carteira. A primeira mentoria vira caminho.
Então, enquanto o Brasil entra em campo carregando expectativa, cobrança e esperança, vale olhar também para a nossa própria trajetória. Qual é a sua próxima estreia? Vender um produto novo? Abordar sua carteira de outro jeito? Assumir uma postura mais consultiva? Ensinar aquilo que aprendeu na prática? Começar algo que vem adiando por medo de não dar certo?
Todo corretor, em algum momento, vai precisar estrear em uma nova fase. E quando esse dia chegar, a ansiedade pode até vir junto. O medo também. Mas, se houver preparo, vontade de aprender e coragem para agir, a estreia deixa de ser apenas um risco. Ela vira começo.
Afinal, Copa se joga em campo. Mas confiança se constrói antes. E na corretagem também.
