A inteligência artificial deixou de ocupar apenas apresentações sobre o futuro para entrar, de forma concreta, na operação do mercado de seguros. Seguradoras, corretoras e empresas de tecnologia já utilizam a IA para analisar documentos, organizar informações, apoiar cotações, identificar oportunidades comerciais, atender clientes e acelerar processos de emissão e sinistros.
O avanço é confirmado por um levantamento da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg): 80% das seguradoras brasileiras já utilizam inteligência artificial. No entanto, o estudo também mostra que o mercado ainda está aprendendo a transformar a tecnologia em resultados financeiros mais expressivos. Para 77% das empresas, os ganhos obtidos até agora são incrementais, voltados principalmente ao aperfeiçoamento de processos existentes. Além disso, 84% não esperam, por enquanto, crescimento de receita superior a 1% decorrente da aplicação da tecnologia.
Os números indicam que a IA já está disseminada, mas ainda precisa avançar na integração com a estratégia dos negócios. O desafio não é mais decidir se a tecnologia será adotada, mas identificar onde ela pode gerar valor, reduzir custos, melhorar a experiência do cliente e ampliar a capacidade comercial.
“O mercado brasileiro superou a fase do hype da inteligência artificial e entrou numa era de maturidade. No entanto, ter a tecnologia implantada não garante rentabilidade contínua. Projetos bem-sucedidos começam não apenas na escolha da ferramenta de IA, mas também na definição clara de um problema de negócio”, afirma Aldo Pires, CEO da add, consultoria especializada em soluções tecnológicas para o mercado de seguros.
Na avaliação do executivo, aplicações relacionadas à liquidação de sinistros, mitigação de fraudes, validações regulatórias e automação operacional tendem a gerar resultados mais consistentes quando estão ligadas a objetivos mensuráveis. “Sem conexão com a redução de custos ou a geração de receita, a tecnologia perde força”, destaca.
Da cotação ao sinistro
O uso da inteligência artificial já percorre praticamente todo o ciclo do seguro. Na etapa comercial, a tecnologia pode captar e organizar leads, reunir informações necessárias à cotação, comparar propostas e acompanhar negociações. Na emissão, ajuda a validar dados e documentos. Depois da contratação, apoia o atendimento, as renovações e a identificação de oportunidades dentro da carteira.
No sinistro, a IA pode realizar a triagem de documentos, cruzar informações, identificar inconsistências e priorizar casos que precisam de análise humana. Levantamento realizado pela Pipefy com sua base de clientes no primeiro semestre de 2026 aponta que a gestão de sinistros concentra 25% das aplicações de IA no setor, seguida pela emissão de apólices, com 15%, e pelo suporte às vendas, com 10%.
A concentração nos sinistros não ocorre por acaso. Essa é uma das áreas de maior complexidade da operação, pois envolve documentos, imagens, regras contratuais, sistemas diferentes e prazos de atendimento. Ao assumir parte das conferências e classificações, a tecnologia pode reduzir o tempo de análise e permitir que os profissionais se concentrem nos casos que exigem julgamento, negociação ou acolhimento do segurado.
Para as corretoras, um dos movimentos mais importantes está na integração dessas funcionalidades à jornada de vendas. A nova geração de soluções busca reunir em um único ambiente etapas que ainda são executadas em diferentes sistemas, planilhas, portais e conversas por WhatsApp.
A Segura, por exemplo, desenvolveu uma IA de vendas que organiza o fluxo comercial desde a entrada do lead até a emissão da apólice. A solução coleta informações, apoia a cotação, gera comparativos e acompanha a oportunidade em etapas como negociação, aguardando emissão e apólice emitida. Antes de qualquer proposta ser enviada, porém, o corretor revisa e aprova o conteúdo.
“A IA não chega para substituir o corretor, mas para tirar da frente dele tudo aquilo que é manual, repetitivo e que impede uma atuação mais estratégica. O corretor é quem conhece o cliente, toma decisões e nutre aquela relação”, afirma Luis Alberto Nogueira, o Bebeto, CEO e cofundador da Segura.
Oportunidades dentro da própria carteira
Uma das aplicações com maior potencial para as corretoras está na análise da base de clientes. Muitas oportunidades de negócio permanecem escondidas em sistemas e planilhas por falta de tempo para avaliar individualmente cada segurado.
Com dados organizados, a IA pode identificar clientes próximos da renovação, apontar quem possui apenas um tipo de seguro, localizar possíveis lacunas de proteção e sugerir prioridades de contato. Um cliente com seguro de automóvel, por exemplo, pode ter perfil para contratar proteção residencial, de vida ou para equipamentos, desde que a recomendação seja analisada pelo corretor e faça sentido para suas necessidades.
A tecnologia também pode apoiar atividades mais simples da rotina, como transformar explicações técnicas em textos acessíveis, resumir condições gerais, estruturar comparativos de coberturas e preparar mensagens para diferentes canais.
Entre as aplicações que já podem ser incorporadas pelas corretoras estão:
- tradução de termos técnicos para uma linguagem mais clara;
- comparação de coberturas, franquias, limites, carências e exclusões;
- elaboração de respostas iniciais para dúvidas recorrentes;
- localização de informações em apólices e condições gerais;
- organização de leads e acompanhamento do funil de vendas;
- identificação de renovações e oportunidades de cross-selling;
- produção de resumos de reuniões e registros de atendimento;
- apoio à criação de conteúdos educativos e comerciais.
O uso dessas ferramentas exige, entretanto, conferência permanente. Informações relacionadas a coberturas, exclusões, valores, prazos e condições contratuais devem ser verificadas nos documentos oficiais antes de serem apresentadas ao cliente.
O corretor diante de uma nova distribuição
Se a inteligência artificial assume tarefas operacionais, o diferencial do corretor passa a estar cada vez mais na interpretação dos riscos, na orientação e na construção de confiança. A tecnologia pode localizar informações e indicar possibilidades, mas não conhece, por si só, toda a realidade familiar, profissional, patrimonial ou empresarial do cliente.
Para Genival de Souza e Silva, cofundador da DHOMO INS, o principal risco para o corretor não é a chegada da IA, mas permanecer concentrado em atividades que tendem a ser automatizadas.
“Vejo muitos corretores perguntando qual IA precisam comprar. A pergunta que importa é outra: por que o cliente continuará precisando de mim quando a parte operacional estiver automatizada? É essa resposta que define onde a tecnologia faz diferença”, afirma.
Na avaliação do especialista, profissionais que conhecem o cliente, interpretam riscos e ajudam na tomada de decisão podem ampliar sua atuação com o apoio da tecnologia. Já um modelo baseado apenas em cotar, comparar preços e emitir apólices tende a perder relevância.
“A tecnologia não elimina o bom profissional. Ela torna evidente a diferença entre quem entrega uma apólice e quem entrega inteligência para o cliente decidir melhor”, acrescenta Genival.
Essa transformação também vem sendo debatida em encontros realizados com os corretores. Durante o Sinc Summit, promovido pelo Sincor-SP em diferentes regiões do Estado de São Paulo, a tecnologia foi apresentada como uma ferramenta para liberar os profissionais de tarefas operacionais e ampliar o tempo dedicado à consultoria.
“A Inteligência Artificial não substitui o corretor. Ela amplia sua capacidade de atender melhor, ganhar produtividade e dedicar mais tempo ao que realmente faz diferença: construir relacionamento e oferecer consultoria de valor ao cliente”, afirmou o especialista Rafael Altomare durante sua apresentação.
Dados e governança determinam os resultados
A capacidade de uma ferramenta de IA depende diretamente da qualidade das informações às quais ela tem acesso. Dados desatualizados, incompletos ou espalhados por diferentes sistemas podem levar a respostas imprecisas e decisões equivocadas.
Por isso, a adoção da tecnologia precisa ser acompanhada pela organização da base de clientes, definição de permissões de acesso, proteção de informações pessoais e registro dos processos realizados. A empresa também deve saber quais dados são utilizados, onde ficam armazenados e se podem ser empregados pelo fornecedor para treinar modelos externos.
Em julho de 2026, a Susep publicou um Manual de Orientações sobre Segurança Cibernética que inclui as soluções de inteligência artificial entre os serviços relevantes que podem envolver o acesso, a manipulação ou a análise de dados. O documento reforça a importância da classificação das informações, dos controles de acesso, do monitoramento de terceiros e da integração da segurança à gestão de riscos.
A supervisão humana é especialmente importante em decisões capazes de afetar a aceitação de uma proposta, o preço, a cobertura ou o pagamento de uma indenização. Modelos treinados com bases históricas podem reproduzir distorções, utilizar correlações inadequadas ou interpretar incorretamente um documento. Velocidade, portanto, não pode significar ausência de revisão ou impossibilidade de contestação.
Começar pelo problema, e não pela ferramenta
Para as corretoras interessadas em avançar, o caminho mais seguro é selecionar uma atividade delimitada, estabelecer um objetivo e medir o resultado. Em vez de automatizar toda a operação de uma única vez, a empresa pode começar pela organização das renovações, consulta de documentos, qualificação de leads ou preparação de respostas recorrentes.
Também é importante definir quais tarefas podem ser realizadas automaticamente, quais precisam de aprovação e quais devem permanecer sob responsabilidade integral do profissional. Quanto maior o impacto da decisão sobre o cliente, maior deve ser a participação humana.
O interesse pela tecnologia tende a continuar crescendo. Segundo a Gallagher Re, empresas focadas em inteligência artificial receberam 95% de todo o financiamento global destinado às insurtechs no primeiro trimestre de 2026. No período, os investimentos no segmento chegaram a US$ 1,63 bilhão.
Mais do que uma corrida por ferramentas, porém, a nova etapa representa uma mudança na forma de operar e se relacionar com o consumidor. A IA pode tornar o seguro mais ágil, acessível e personalizado, desde que seja aplicada com dados confiáveis, objetivos claros, segurança e supervisão.
Para o corretor, a oportunidade está justamente na combinação entre eficiência tecnológica e conhecimento humano. A máquina pode organizar dados, reconhecer padrões e acelerar tarefas. A compreensão do contexto, a responsabilidade pela orientação e a confiança necessária para proteger pessoas e patrimônios continuam sendo construídas por profissionais.

