Escolher ser disruptivo no mercado de seguros não é uma escolha simples. Aliás, em muitos casos, talvez nem seja exatamente uma escolha. Algumas pessoas simplesmente não conseguem enxergar um problema recorrente, uma oportunidade desperdiçada ou um processo sem sentido e seguir adiante como se aquilo fosse normal. Existe uma inquietação que obriga a perguntar por que está sendo feito daquela maneira, se ainda faz sentido continuar assim e, principalmente, se o caminho escolhido realmente leva ao resultado que todos dizem buscar.
O mercado de seguros é naturalmente mais cauteloso em relação às mudanças. E isso, até certo ponto, é compreensível. Estamos falando de um setor que administra riscos, protege patrimônios, empresas e famílias, trabalha sob forte regulação e precisa preservar segurança, previsibilidade e equilíbrio. A prudência não é um defeito no nosso mercado; é parte da sua própria razão de existir. O problema começa quando essa prudência se transforma em imobilismo e quando a necessidade de proteger passa a servir como justificativa para não revisar absolutamente nada.
Em muitos momentos, o mercado leva a sério demais a não mudança. Replicamos modelos, discursos, campanhas, processos e padrões sem nos perguntar por que estamos fazendo aquilo naquele momento. Uma estratégia funcionou anos atrás e, por isso, continua sendo repetida. Um processo foi criado para resolver uma realidade que já mudou, mas permanece intacto porque ninguém assumiu a responsabilidade de revê-lo. Não se discute mais se faz sentido; discute-se apenas como continuar fazendo. E, aos poucos, aquilo que deveria ser experiência acumulada se transforma em repetição automática.
Ser disruptivo não significa defender que tudo o que é antigo está errado ou que toda novidade merece espaço. Nem toda ideia nova é boa, assim como nem todo modelo tradicional precisa ser abandonado. A verdadeira disrupção está em manter viva a capacidade de questionar a relação entre aquilo que fazemos e o objetivo que desejamos alcançar. Estamos realmente protegendo mais pessoas? Estamos tornando o seguro mais compreensível? Estamos fortalecendo o corretor? Estamos construindo uma experiência melhor para o cliente? Se o objetivo é um, mas o processo nos leva continuamente para outro lugar, talvez seja necessário ter coragem para interromper a repetição.
É justamente nesse ponto que surge a linha tênue entre ser disruptivo e ser apenas um crítico. Os dois identificam problemas e questionam o padrão. A diferença é que o crítico encerra sua participação no diagnóstico, enquanto o disruptivo assume a responsabilidade de construir uma alternativa. Criticar exige opinião. Transformar exige proposta, trabalho, teste, medição, correção e persistência. O disruptivo não é necessariamente a pessoa que fala mais alto ou que discorda de tudo. É aquela que, depois de apontar o que não funciona, permanece na sala para ajudar a encontrar uma forma melhor de fazer.
Mesmo assim, escolher essa postura frequentemente significa conviver com a sensação de ser incompreendido. Quem questiona processos pode ser visto como impaciente. Quem pede velocidade pode ser considerado inconveniente. Quem insiste em conectar áreas pode parecer alguém que não compreende a complexidade da organização. E sempre existe um motivo para não fazer a mudança acontecer: há muitas demandas, as áreas não se conversam, o sistema ainda não permite, a aprovação depende de outra pessoa, existem outras prioridades, não é o momento ou simplesmente sempre foi feito assim. Cada justificativa, analisada isoladamente, pode até parecer razoável. O problema é que, quando reunidas, elas formam uma estrutura perfeita para que nada mude.
Uma das maiores frustrações de quem tenta transformar o mercado não é apenas ver boas ideias enfrentarem resistência. É perceber que, muitas vezes, o próprio mercado não sabe o que fazer quando algo dá certo. Sabemos administrar dificuldades, justificar atrasos, explicar por que uma iniciativa não avançou e produzir relatórios sobre aquilo que não funcionou. Mas, quando um projeto entrega resultado, quando uma nova forma de trabalhar faz sentido e quando os números confirmam a hipótese, surge uma pergunta para a qual muitas estruturas ainda não estão preparadas: e agora?
O resultado é celebrado, vira apresentação, comunicado interno, fotografia, case ou reconhecimento pontual. Depois disso, porém, tudo volta ao ritmo anterior. A inovação para na segunda página. O mercado consegue criar o piloto, mas não sabe transformá-lo em processo. Consegue reconhecer uma boa iniciativa, mas não define quem será responsável por escalá-la. Consegue comprovar que algo funcionou, mas não ajusta metas, incentivos, sistemas e estruturas para permitir que aquilo ganhe velocidade. Em alguns casos, parece que estamos tão acostumados a administrar o que não funciona que o sucesso também se torna uma espécie de imprevisto.
Ser disruptivo, portanto, também é furar bolhas. É entrar em espaços nos quais uma ideia diferente ainda precisa pedir licença. É aceitar que, muitas vezes, você será percebido primeiro como alguém que incomoda e apenas depois como alguém que contribui. Mas isso também exige maturidade. Disrupção sem escuta pode virar arrogância. Crítica sem proposta vira apenas ruído. Inovação sem execução não passa de apresentação. Questionar o mercado não significa acreditar que apenas você compreendeu o problema, mas estar disposto a colocar sua ideia à prova, ouvir quem conhece outras partes da realidade e construir uma solução que gere valor para todos os envolvidos.
Talvez por isso ser disruptivo seja tão cansativo quanto estimulante. Há momentos em que a resistência gera frustração, em que a lentidão incomoda e em que a distância entre o óbvio e aquilo que efetivamente acontece parece difícil de compreender. Mas, com o tempo, essa mesma frustração pode se transformar em combustível. Cada resposta automática reforça a necessidade de fazer perguntas melhores. Cada barreira revela um processo que precisa ser revisto. E cada resultado que não foi devidamente tracionado lembra que transformar não é apenas provar que uma ideia funciona, mas lutar para que ela não termine como mais um bom exemplo esquecido.
No fim, escolher ser disruptivo no mercado de seguros não é buscar ser diferente por vaidade, nem discordar apenas para ocupar uma posição de destaque. É acreditar que um mercado tão importante pode evoluir sem perder a responsabilidade que o sustenta. É respeitar sua história sem tratá-la como uma sentença. É entender que tradição e transformação não precisam estar em lados opostos. E é não aceitar que “sempre foi assim” continue sendo uma resposta suficiente para aquilo que ainda pode ser melhor.ado não é sermos diferentes por vaidade, mas termos coragem de propor mudanças que realmente façam sentido para clientes, corretores, seguradoras e para o próprio futuro do setor.
