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Tendências

“O maior risco para o corretor de seguros não é a inteligência artificial”

Genival de Souza e Silva afirma que o verdadeiro desafio do mercado não é adotar inteligência artificial, mas redefinir o papel do corretor em uma distribuição que já está sendo transformada pela tecnologia

Genival de Souza e Silva
Genival de Souza e Silva

A inteligência artificial ocupa espaço crescente nas discussões sobre o futuro do mercado de seguros. Para Genival de Souza e Silva, cofundador da DHOMO INS e especialista em estratégia para a distribuição de seguros, o principal risco para os corretores não está na chegada da tecnologia, mas em insistir em um modelo de atuação cuja parte operacional tende a ser cada vez mais automatizada.

Segundo Genival, a discussão ainda está centrada na pergunta errada. “O maior risco para o corretor não é a inteligência artificial. É continuar exercendo uma atividade que a inteligência artificial fará melhor, mais rápido e com menor custo”, afirma.

Na avaliação do especialista, muitos profissionais ainda concentram seus esforços em descobrir quais ferramentas de IA devem adquirir, quando a questão mais importante é compreender qual valor continuarão entregando ao cliente em um cenário no qual boa parte das atividades operacionais poderá ser realizada por sistemas inteligentes.

“Vejo muitos corretores perguntando qual IA precisam comprar. A pergunta que importa é outra: por que o cliente continuará precisando de mim quando a parte operacional estiver automatizada? É essa resposta que define onde a tecnologia faz diferença.”

Para Genival, a inteligência artificial não substitui competência; ela amplia aquilo que o profissional já faz bem. “Se o corretor atua de forma consultiva, entende o risco do cliente e ajuda na decisão, a IA amplia o alcance desse trabalho. Se a atividade se resume a cotar, comparar preço e emitir, a tecnologia apenas acelera um modelo que já vinha perdendo valor.”

Na visão do especialista, essa transformação não é uma previsão para os próximos anos. Ela já está em curso. O maior risco está justamente na distância entre o mercado que mudou e a leitura que parte das lideranças ainda faz desse movimento.

“A arquitetura da distribuição está sendo redesenhada. O seguro passa a estar presente em outras jornadas de consumo, novas plataformas surgem e parte da operação deixa de depender de intervenção humana. Boa parte dos líderes ainda trata isso como previsão, quando o que está em jogo é uma decisão que precisa ser tomada agora.”

A reflexão é direcionada principalmente aos gestores de corretoras, tanto aqueles que construíram seus negócios ao longo de décadas quanto às novas gerações que assumem posições de liderança e percebem que a experiência acumulada, por si só, já não basta para interpretar as mudanças do mercado.

Para Genival, acompanhar tendências deixou de ser um diferencial. Hoje, praticamente todos têm uma opinião sobre inteligência artificial. O verdadeiro diferencial está na capacidade de transformar esse conhecimento em decisões estratégicas aplicáveis à realidade de cada corretora, conduzindo a complexidade até uma decisão fundamentada.

Por isso, o especialista faz uma ressalva à adoção apressada de ferramentas. “Antes de escolher qualquer tecnologia, o corretor precisa identificar o que realmente diferencia a sua atuação e o que pode ser automatizado. Quando essa ordem se inverte, investe-se em eficiência para um processo que já deixou de importar.”

Na prática, a inteligência artificial já oferece ganhos importantes na organização de carteiras, no cruzamento de dados e na identificação de oportunidades que passariam despercebidas. Ainda assim, Genival ressalta que a tecnologia não substitui atributos humanos como confiança, interpretação de contexto e aconselhamento. “Ela mostra o sinal. Quem constrói confiança, lê o contexto e conduz a decisão continua sendo o corretor.”

Segundo ele, esse movimento extrapola o mercado de seguros. A intermediação qualificada — baseada em aconselhar, avaliar riscos e orientar decisões — está sendo redefinida em diferentes setores da economia à medida que a inteligência artificial absorve atividades operacionais. No seguro, essa transformação torna-se especialmente evidente por meio da atuação do corretor.

“A tecnologia não elimina o bom profissional. Ela torna evidente a diferença entre quem entrega uma apólice e quem entrega inteligência para o cliente decidir melhor.”

Para Genival, não se trata de anunciar o fim da corretagem, mas de reconhecer o início de uma nova fase para a distribuição de seguros. Nesse cenário, as lideranças precisarão repensar seu posicionamento estratégico antes mesmo de escolher a próxima ferramenta tecnológica. “A tecnologia continuará evoluindo. A questão é se o corretor evoluirá junto com ela ou continuará competindo justamente no espaço que será ocupado pela automação.”

Sobre Genival de Souza e Silva

Genival de Souza e Silva atua há mais de três décadas no mercado de seguros e é cofundador da DHOMO INS, empresa dedicada à educação estratégica para o setor. Há cerca de 20 anos é professor da ENS e coordena o Grupo Técnico de Comunicação do OPIN Brasil/Susep. Ao longo de sua trajetória, desenvolveu estudos sobre estratégia, distribuição e inovação no mercado de seguros no Brasil, em Portugal e nos Estados Unidos, com foco na aplicação prática do conhecimento para apoiar a tomada de decisão de lideranças de corretoras, seguradoras, assessorias e demais organizações do setor.