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Automóvel

Carros híbridos e elétricos crescem no Brasil, mas seguro ainda gera dúvidas: o que muda na prática?

Com vendas em alta recorde, esses veículos ganham espaço e aceleram mudanças na forma como seguradoras estruturam coberturas e preços

Carros híbridos e elétricos crescem no Brasil, mas seguro ainda gera dúvidas: o que muda na prática?

O mercado de veículos híbridos e elétricos segue em forte expansão no Brasil em 2026 e caminha para um ano histórico. Em fevereiro, foram quase 25 mil emplacamentos, alta de 92% na comparação anual. Hoje, esses modelos já representam 14% das vendas de veículos leves no país, segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). A própria entidade projeta que 2026 pode se tornar o melhor ano da eletromobilidade no Brasil, com expectativa de novos recordes de vendas.

O avanço é impulsionado por uma combinação de fatores: maior oferta de modelos, entrada de montadoras chinesas, redução gradual de preços em alguns segmentos, busca por eficiência energética e crescimento da infraestrutura de recarga no país. Além disso, o consumidor brasileiro começa a enxergar esses veículos não apenas como opção sustentável, mas também como alternativa economicamente viável no longo prazo, especialmente diante do menor consumo de combustível e dos custos reduzidos de manutenção preventiva em determinados modelos.

Apesar desse crescimento acelerado, o tema ainda levanta incertezas quando o assunto é seguro. Dúvidas sobre cobertura, custo, reparação e manutenção seguem como entraves para parte dos consumidores, especialmente diante de um mercado que ainda se adapta a essa nova realidade. Questões como valor da franquia, disponibilidade de oficinas especializadas, reposição de peças e até o tratamento da bateria em caso de colisão ainda geram insegurança para muitos motoristas no momento da contratação da apólice.

Para Victor Horta, CPO da Pier, seguradora que tem a missão de mudar a relação dos brasileiros com os seguros, o desafio não está apenas na novidade tecnológica, mas na forma como o risco é precificado. “Os carros híbridos e elétricos trazem tecnologias diferentes dos modelos tradicionais, o que exige uma leitura mais sofisticada por parte das seguradoras. Ainda existe no mercado uma percepção de que o seguro para esses veículos é mais caro ou mais complexo, mas isso depende muito mais de como o produto é estruturado”, afirma.

Na prática, veículos híbridos e elétricos apresentam particularidades que impactam diretamente o seguro. Componentes como a bateria de alta tensão, por exemplo, têm custo elevado e exigem mão de obra especializada em caso de sinistro, o que pode influenciar o valor da apólice. Em alguns modelos, a bateria representa uma parcela significativa do valor total do veículo, tornando essencial uma análise mais detalhada da extensão dos danos após acidentes.

Nos elétricos, questões relacionadas à reparação da bateria, ao transporte do veículo em casos específicos e à rede credenciada especializada também entram na conta. Diferentemente dos automóveis convencionais, nem toda oficina está apta a realizar reparos em sistemas de alta voltagem, o que exige treinamento técnico e certificações específicas. Esse fator influencia diretamente a dinâmica dos custos e do atendimento pós-sinistro.

Por outro lado, esses veículos também apresentam características que podem equilibrar a conta para as seguradoras. Carros elétricos possuem menos peças móveis, menor desgaste de itens mecânicos tradicionais e, em alguns casos, menor necessidade de manutenção corretiva. Além disso, estudos internacionais já apontam comportamentos de direção mais conservadores entre proprietários desses veículos, embora o histórico estatístico brasileiro ainda esteja em formação.

“Existe um período de adaptação natural. À medida que a base de veículos híbridos e elétricos aumenta e o histórico de dados amadurece, as seguradoras conseguem precificar melhor o risco e oferecer produtos mais competitivos. A tendência é que essa diferença de percepção diminua ao longo do tempo”, explica Horta.

Outro ponto relevante é a cobertura e o entendimento do consumidor sobre o que está, de fato, incluído na apólice. Em muitos casos, a dúvida não está apenas no preço, mas na clareza das condições, especialmente em relação a itens específicos desses veículos, como cobertura para carregadores residenciais, panes elétricas, danos relacionados à bateria ou assistência adequada em situações de pane seca elétrica.

Na avaliação de especialistas do mercado, o momento atual ainda é de amadurecimento. O crescimento da frota tende a estimular mais concorrência entre seguradoras, ampliação da rede de reparação e desenvolvimento de produtos específicos para esse perfil de cliente. Ao mesmo tempo, o corretor de seguros ganha papel ainda mais relevante ao ajudar o consumidor a entender diferenças de cobertura e escolher uma proteção alinhada ao perfil do veículo e da utilização.

Isso abre espaço para modelos mais transparentes e flexíveis, capazes de acompanhar as características do automóvel e o comportamento do motorista, tendência que já vem sendo observada em outros mercados mais maduros em eletromobilidade.

“O crescimento dos híbridos e elétricos exige uma evolução também na forma de oferecer seguro. Produtos mais simples, com coberturas personalizadas e alinhadas ao motorista, tendem a ganhar espaço. No fim, a confiança do consumidor passa pela clareza e pela percepção de valor do serviço contratado”, conclui o executivo.