O Grupo Andrade Gutierrez, um dos maiores e mais tradicionais conglomerados de engenharia pesada do Brasil, protocolou um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar uma dívida corporativa que soma R$ 3,4 bilhões. A companhia, que historicamente liderou marcos da infraestrutura nacional, como a Usina Hidrelétrica de Itaipu, a Rodovia Castelo Branco e a primeira linha de metrô do país, justificou a medida apontando os impactos severos da alta dos juros, a volatilidade cambial do dólar e a paralisação ou adiamento de 47% do seu portfólio atual de contratos.
O movimento da empreiteira joga luz sobre as vulnerabilidades estruturais do setor de construção pesada, caracterizado por ciclos de negócios de longo prazo e baixa flexibilidade para a redução de custos fixos.
No cenário macroeconômico, a suspensão repentina de repasses financeiros interrompe o fluxo de caixa operacional das empresas, enquanto os passivos financeiros de longo prazo continuam a acumular juros elevados.
O peso dos contratos longos
O reflexo mais contundente dessa dinâmica foi o adiamento forçado de um projeto de R$ 3,2 bilhões na República Dominicana por determinação do governo local, ativo que representava, isoladamente, 32% de toda a carteira de engenharia do grupo.
O pedido de reestruturação — que propõe o alongamento do perfil das dívidas até o ano de 2070 e solicita autorização expressa para que a empresa continue participando de concorrências públicas — ultrapassou as fronteiras do ambiente bancário e ativou o sinal de alerta máximo no mercado de seguros e resseguros de Grandes Riscos.
Como as diretrizes de governança e conformidade (compliance) do setor segurador tornaram-se extremamente rígidas após os desdobramentos da Operação Lava Jato, analistas avaliam que o verdadeiro crivo para a continuidade operacional da empreiteira não será apenas jurídico, mas sim a sua capacidade de obter novas linhas de Seguro Garantia e Riscos de Engenharia junto ao mercado privado.
Impacto no Seguro Garantia
No ecossistema de contratações públicas e grandes concessões privadas, o Seguro Garantia é o instrumento legal que assegura a execução dos contratos ou indeniza o contratante em caso de inadimplência da construtora. Com quase metade das obras da Andrade Gutierrez sob status de paralisação ou adiamento, o mercado segurador passa a monitorar de perto o risco de default contratual.
O acionamento em massa dessas apólices pode gerar sinistros bilionários, pressionando as provisões técnicas das seguradoras locais e demandando a ativação de contratos de resseguro internacional.
A grande preocupação do setor reside no “efeito contágio”: a deterioração do perfil de crédito de grandes players de engenharia costuma provocar um endurecimento generalizado na subscrição de riscos, encarecendo os prêmios e reduzindo a capacidade de tomada de garantias para outras empresas do setor.
Lições da carteira internacional
O revés sofrido pelo grupo na República Dominicana expõe a relevância da gestão de Riscos Políticos e de Crédito à Exportação em projetos transfronteiriços. Decisões unilaterais de Estados soberanos, moratórias ou revisões de contratos públicos internacionais são riscos complexos que, quando não mitigados por apólices específicas, podem sufocar a liquidez de uma grande corporação.
O mercado de seguros utiliza esse caso como um exemplo prático da necessidade de blindagem financeira estruturada. Para os subscritores de riscos, eventos dessa magnitude demandam uma revisão técnica sobre a exposição geográfica das carteiras e sobre os limites de retenção de risco em projetos de infraestrutura fora do país de origem.
O impasse das novas licitações
O plano apresentado pela Andrade Gutierrez prevê a manutenção do direito de disputar novas licitações para recompor sua geração de receita. Contudo, na prática, a viabilidade dessa estratégia depende diretamente do apetite das seguradoras.
Mesmo que o Poder Judiciário conceda o aval para a participação nos certames, nenhuma obra pública de grande porte pode ser iniciada sem a apresentação das respectivas apólices de garantia e de engenharia.
Com a empresa formalmente em processo de recuperação extrajudicial e carregando o histórico de um acordo de leniência de R$ 1,5 bilhão, a emissão de novas capacidades de risco se tornará um dos debates mais complexos entre corretores, seguradoras e comitês de crédito nos próximos meses.

