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De corretor para corretor

Sob a mesma lona

O circo consegue reunir gerações, despertar memórias e criar pertencimento com uma estrutura relativamente simples. Talvez o mercado de seguros ainda precise aprender a diferença entre colocar pessoas no mesmo lugar e fazê-las se sentirem parte dele.

Sob a mesma lona

Esta semana fui ao circo. Fazia anos que eu não vivia essa experiência e, para ser sincero, quase não fui. Eu estava cansado, sem muita disposição, mas acabei indo a um circo de médio porte aqui no Recife. Já sentado diante do picadeiro, percebi que talvez o mais interessante não estivesse apenas no espetáculo, mas na plateia. Crianças, adultos, pais, mães e pessoas mais velhas acompanhavam os mesmos números com olhares completamente diferentes, mas todos pareciam, de alguma forma, envolvidos pelo que acontecia ali.

As crianças riam do palhaço e se surpreendiam com cada movimento. Os pais observavam a reação dos filhos e talvez revivessem, por meio deles, alguma lembrança antiga. Os adultos reencontravam a própria infância naqueles personagens que mudam pouco e, ainda assim, continuam funcionando. O palhaço, o trapezista, o picadeiro e a música permanecem reconhecíveis, mas cada geração encontra uma maneira diferente de se relacionar com aquilo. O circo não precisa entregar a mesma experiência para todos; ele cria uma experiência ampla o suficiente para que cada pessoa encontre ali alguma coisa que também lhe pertence.

Foi impossível não levar essa imagem para o mercado de seguros. O nosso mercado também reúne pessoas de gerações, tamanhos e histórias muito diferentes. Existem corretores que começaram quando praticamente tudo era feito no papel e profissionais que já chegaram em um ambiente digital. Existem grandes estruturas, pequenas corretoras, empresas familiares e operações especializadas. Todos participam do mesmo mercado, mas nem sempre todos conseguem se sentir realmente sob a mesma lona.

Encontros não faltam. Temos congressos, convenções, treinamentos, premiações, painéis, cafés e reuniões pensados para aproximar pessoas. Esses espaços são importantes, geram conhecimento, negócios e relacionamento. A questão é que colocar pessoas no mesmo lugar não significa necessariamente criar conexão. É possível encher um auditório, montar um palco, tirar uma boa fotografia e produzir a sensação de proximidade sem que exista, de fato, pertencimento. Muitas iniciativas terminam nelas mesmas: as pessoas chegam, assistem, conversam por alguns minutos, fazem os registros necessários e retornam às próprias rotinas. Fica a imagem do encontro, mas pouco se pensa no que deve continuar depois.

É nesse ponto que a velha expressão do pão e circo ganha outro sentido. O problema não está no circo. Naquela noite, o espetáculo não substituía o vínculo; era justamente o caminho pelo qual ele acontecia. O problema é quando o espetáculo serve apenas para mostrar que alguma coisa está sendo feita, quando a fotografia importa mais do que a conversa, o número de participantes vale mais do que a experiência e o palco se torna mais importante do que as pessoas. Existe uma diferença grande entre reunir uma plateia e construir uma comunidade.

O circo entende que pessoas diferentes precisam de portas de entrada diferentes. Ele não exige que uma criança e um adulto se encantem pelo mesmo motivo. Cada um encontra o seu lugar dentro da mesma experiência. Talvez o mercado de seguros ainda tente falar com todos da mesma forma, como se um corretor com trinta anos de profissão tivesse as mesmas necessidades de quem começou há poucos meses, ou como se uma pequena corretora pudesse se relacionar com o mercado exatamente da mesma maneira que uma grande operação. Conectar não é ignorar essas diferenças, mas reconhecê-las e construir um ambiente em que todos consigam se perceber como participantes.

Isso exige comunicação, mas exige principalmente escuta, continuidade e disposição para se relacionar. Exige pensar no antes, cuidar do durante e criar alguma coisa para o depois. Também exige abrir espaço para que novas pessoas contribuam, para que a experiência dos mais antigos continue sendo valorizada e para que o tamanho da operação não determine sozinho quem merece ser ouvido. O circo também ensina que tradição não precisa significar imobilidade. Os personagens são conhecidos, mas cada apresentação precisa conquistar novamente aquela plateia, naquela cidade e naquela noite. A memória afetiva aproxima, mas não substitui a entrega.

No mercado de seguros acontece algo parecido. Confiança, experiência e relacionamento continuam sendo valores fundamentais, mas precisam ser transformados em experiências reais. Não adianta falar em proximidade se as relações permanecem fechadas nos mesmos círculos, defender inovação sem abrir espaço para quem está chegando ou dizer que o corretor está no centro quando ele é chamado apenas para ocupar uma cadeira e aparecer na fotografia.

Naquela noite, o circo conseguiu atenção em uma época de distração e conexão entre pessoas que provavelmente tinham pouco em comum fora dali. Talvez porque existisse verdade no que estava sendo feito: trabalho, risco, disciplina, sonho e amor pelo próprio ofício. É esse tipo de conexão que eu gostaria de enxergar mais no mercado de seguros, com menos preocupação em apenas reunir pessoas e mais disposição para fazê-las se sentirem parte. Porque estar no mesmo mercado não significa, por si só, fazer parte da mesma comunidade. Não basta convidar as pessoas para entrar. É preciso construir um espaço em que elas sintam que existe, de verdade, um lugar para elas sob a mesma lona.