Esta semana me fez lembrar de Chegadas e Partidas, programa que transformava o aeroporto em cenário para encontros, despedidas e recomeços. Em alguns episódios, alguém esperava uma pessoa que tinha partido para estudar, trabalhar ou viver uma experiência em outro lugar. Mesmo mantendo contato durante esse período, o reencontro revelava algo que as conversas à distância não conseguiam mostrar por inteiro: aquela pessoa voltava diferente. Acho que a carreira também é um pouco assim. Pessoas e empresas chegam, algumas permanecem, outras partem e há aquelas que reaparecem em nosso caminho já transformadas. O problema é que, muitas vezes, nós ainda as recebemos com a imagem que guardamos do momento em que partiram.
Na trajetória de um corretor, é natural vivermos experiências positivas e negativas com seguradoras, assessorias, prestadores, clientes e com as próprias pessoas que fazem parte dessas empresas. Às vezes, a dificuldade foi realmente da companhia. Em outros momentos, talvez tenha sido a fase que ela atravessava, a estrutura disponível naquele período ou até o nosso próprio momento profissional. Um atendimento que não funcionou, um processo que gerou desgaste, uma falta de suporte ou uma promessa que não se cumpriu acaba criando uma objeção legítima. O problema começa quando aquela experiência deixa de ser uma referência importante e se transforma em uma sentença definitiva.
Curiosamente, muitas vezes é mais fácil abrir espaço para um parceiro completamente novo do que reconstruir uma relação com alguém com quem já tivemos uma experiência ruim. O novo chega sem histórico, sem desgaste e sem precisar vencer resistências. Já o antigo precisa enfrentar uma memória. Antes mesmo de a conversa começar, ele já está respondendo pelo que aconteceu cinco ou seis anos atrás. A experiência vira conceito, o conceito vira objeção e a objeção passa a decidir sozinha. Como seres humanos, temos essa tendência de recorrer ao passado para nos proteger no presente. Só que, quando fazemos isso de maneira automática, corremos o risco de não perceber que o motivo que nos afastou talvez já nem exista mais.
Foi justamente esse exercício que vivi nos últimos dias. Tive a oportunidade de me reconectar com grandes parceiros, tanto com seguradoras quanto com as pessoas que fazem essas empresas acontecerem. Foram conversas francas, maduras e acompanhadas da possibilidade de observar o que realmente mudou. Porque também não se trata de acreditar apenas em um discurso bonito. Reconstruir confiança exige escuta, mas exige evidência. É preciso perceber se os processos evoluíram, se a companhia aprendeu com os erros, se as pessoas estão mais próximas e se existe uma disposição verdadeira para fazer diferente. Quando a conversa encontra coerência na prática, a gente entende que permanecer fechado talvez já não seja proteção. Talvez seja apenas resistência.
Essa experiência virou uma chave em mim porque também se conectou muito com o meu momento atual. Fez sentido estar presente, conversar, escutar e compreender que as empresas atravessam jornadas de evolução, assim como nós. O corretor que eu era cinco anos atrás certamente não representa tudo aquilo que consigo entregar hoje. Minha estrutura mudou, minha visão de mercado amadureceu, minhas responsabilidades aumentaram e minha forma de construir parcerias também evoluiu. Se eu desejo que o mercado reconheça a minha versão atual, preciso estar disposto a fazer o mesmo com quem está do outro lado. E foi justamente ao fazer esse paralelo entre a minha própria evolução e a evolução desses parceiros que comecei a perceber algo maior: talvez eu não estivesse apenas atualizando a minha visão sobre algumas seguradoras, mas sobre o mercado inteiro.
Porque o mercado de seguros também já não é o mesmo de cinco ou seis anos atrás. Durante muito tempo, havia uma ou duas seguradoras vistas como muito superiores às demais em determinados aspectos. Hoje, essa distância parece bem menor. Companhias que enfrentavam grandes dificuldades melhoraram seus processos, investiram em tecnologia, aproximaram-se dos corretores e passaram a ouvir com mais atenção o que acontece na ponta. Ao mesmo tempo, seguradoras novas ou que ainda estão conquistando seu espaço chegam com vontade, agilidade e disposição para construir. Quando olhei novamente para esses parceiros, percebi que aquilo que estava acontecendo nos reencontros desta semana fazia parte de um movimento muito mais amplo: o mercado está se nivelando por cima. E isso aumenta a concorrência, amplia nossas possibilidades e obriga todos nós a continuar evoluindo.
É claro que ainda existem lacunas. Há processos que precisam melhorar, experiências abaixo do esperado e uma distância considerável entre aquilo que algumas empresas prometem e o que conseguem entregar. Empresas grandes também podem enfrentar mais dificuldade para mudar de rota. Quanto maior a estrutura, mais complexa tende a ser a transformação. Mas seria injusto ignorar a quantidade de coisa boa que está acontecendo. Hoje vejo mais profissionais qualificados, mais abertura para ouvir o corretor e mais companhias buscando compreender a experiência real do cliente. Nem tudo está resolvido, mas existe um amadurecimento evidente.
Talvez eu consiga enxergar isso com mais clareza por estar participando de alguns projetos por dentro das seguradoras e acompanhando determinados processos mais de perto. Como conselheiro de uma seguradora e como corretor envolvido em iniciativas com outras companhias, passei a observar um pouco mais dos bastidores. E os bastidores mostram algo que nem sempre aparece imediatamente para quem está na ponta: existem muitos profissionais sérios trabalhando para melhorar jornadas, corrigir falhas e fazer boas práticas circularem dentro das empresas. Algumas mudanças levam tempo até aparecer no sistema, no atendimento e na rotina do corretor, mas isso não significa que elas não estejam acontecendo.
Não se trata de apagar o passado, aceitar qualquer justificativa ou retomar uma relação somente porque alguém disse que mudou. O passado continua sendo uma referência importante. Ele nos ensina, cria critérios e ajuda a fazer escolhas melhores. Mas o passado deve servir como referência, não como sentença. Escutar novamente não significa esquecer o que aconteceu. Significa permitir que a realidade atual também participe da decisão.
Saí desta semana com uma sensação muito boa e com a certeza de que preciso permanecer mais aberto. Aberto para escutar, observar, testar e, quando houver coerência, reconstruir. Algumas partidas são necessárias. Algumas chegadas trazem novas possibilidades. E certos reencontros talvez sejam ainda mais valiosos, porque acontecem quando os dois lados já não são os mesmos.
De corretor para corretor, deixo uma pergunta: quantos parceiros ainda estamos enxergando pela fotografia de cinco anos atrás? Talvez seja a hora de olhar novamente. Não para repetir uma história antiga, mas para descobrir se já existem condições de começar uma nova.
