Facebook Pixel

Coluna do influenciador

Mudanças climáticas: proteger o patrimônio deixou de ser uma escolha para o futuro

Mudanças climáticas: proteger o patrimônio deixou de ser uma escolha para o futuro

Por Cristiano Costa Rodrigues (Fox), sócio da Regional Corretora de Seguros e influenciador da Lojacorr.

Até pouco tempo, boa parte dos brasileiros avaliou a necessidade de contratar um seguro com base no histórico da região onde vive ou mantém seu negócio. Se determinado bairro nunca havia alagado, uma empresa jamais tinha sido atingida por uma tempestade ou uma lavoura estava localizada em uma área considerada climaticamente estável, a percepção era de que o risco não justificava o investimento em proteção. As mudanças climáticas estão mostrando que olhar apenas para o passado já não é suficiente.

Chuvas intensas, enchentes, vendavais, granizo, ondas de calor e períodos prolongados de seca têm atingido regiões que não estavam acostumadas a enfrentar fenômenos dessa magnitude. O relatório anual do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou 2025 como um dos anos mais extremos das últimas décadas no Brasil, com recordes de temperatura, chuvas intensas e seca prolongada.

Além das transformações de longo prazo, fenômenos como El Niño e La Niña alteram os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do país. Seus efeitos não são iguais em todas as regiões, mas podem ampliar desequilíbrios, provocando excesso de precipitação em determinadas localidades e estiagem em outras. Isso muda o perfil dos riscos e exige atenção permanente do mercado de seguros.

A lição deixada pelo Rio Grande do Sul

As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 foram uma demonstração dolorosa dessa nova realidade. Famílias perderam casas, veículos e bens construídos durante anos. Empresas tiveram instalações, máquinas, estoques e equipamentos comprometidos, além de enfrentarem longos períodos sem conseguir retomar suas atividades.

Segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), as solicitações de indenização relacionadas às enchentes ultrapassaram R$ 6 bilhões. O valor mostra a capacidade do seguro de contribuir para a reconstrução, mas também revela outra questão: uma parcela muito significativa das perdas econômicas não estava segurada.

A tragédia evidenciou a baixa cultura de proteção ainda existente no Brasil. Muitas pessoas acreditam que o seguro residencial é dispensável ou que serve apenas para imóveis de alto padrão. Da mesma forma, pequenos e médios empresários frequentemente enxergam o seguro como uma despesa que pode ser adiada, até que um evento inesperado coloque em risco a continuidade do negócio. O seguro não impede que a tempestade aconteça, mas pode evitar que uma perda material se transforme em uma crise financeira definitiva.

Seguro residencial precisa acompanhar a nova realidade

A casa costuma concentrar grande parte do patrimônio de uma família. Ainda assim, muitas residências brasileiras permanecem sem qualquer proteção. Dependendo da apólice contratada, o seguro residencial pode oferecer coberturas para incêndio, queda de raio, explosão, danos elétricos, vendaval, granizo e outros acontecimentos. Também pode incluir responsabilidade civil e serviços de assistência para situações do cotidiano.

É importante observar, entretanto, que alagamentos, enchentes e inundações não estão automaticamente incluídos em todos os produtos. As coberturas, condições e exclusões variam entre as seguradoras. Por isso, não basta simplesmente contratar um seguro: é necessário entender a exposição do imóvel e verificar se a apólice realmente contempla os principais riscos daquela localização.

Uma residência próxima a rios ou córregos exige uma análise diferente daquela situada em uma região mais exposta a vendavais ou granizo. Até mesmo áreas sem histórico de ocorrências precisam ser reavaliadas, porque o comportamento climático mudou e continua mudando.

Esse cenário também abre espaço para que as seguradoras desenvolvam produtos mais flexíveis, acessíveis e adequados às características de cada região. Não podemos oferecer as mesmas respostas para riscos que se manifestam de maneiras tão diferentes em um país de dimensões continentais.

Para uma empresa, o prejuízo não termina no dano material

Nos seguros empresariais, a análise precisa ser ainda mais ampla. Uma ocorrência climática pode danificar o imóvel, destruir mercadorias, interromper sistemas elétricos, comprometer máquinas e impedir o acesso de funcionários e clientes.

Mesmo depois que os danos físicos são reparados, a empresa pode levar semanas ou meses para recuperar seu ritmo. Durante esse período, permanecem despesas como salários, aluguel, fornecedores e compromissos financeiros, enquanto a receita pode cair drasticamente.

Por isso, a proteção empresarial deve ser estruturada de acordo com a atividade, a localização, o valor dos equipamentos e estoques e o tempo necessário para a retomada. Além das coberturas patrimoniais, soluções como lucros cessantes podem ser importantes, desde que observados os riscos cobertos, os limites e as condições previstos no contrato.

Para o pequeno empreendedor, que muitas vezes concentra todo o patrimônio e a renda da família no próprio negócio, uma perda sem seguro pode significar o encerramento das atividades. A apólice deve ser vista como parte da estratégia de continuidade da empresa, e não apenas como uma obrigação contratual ou uma despesa operacional.

No campo, proteger a produção é proteger toda a economia

Os efeitos das mudanças climáticas também chegam às lavouras. Seca, excesso de chuva, granizo, geada e variações bruscas de temperatura podem comprometer uma safra inteira e afetar produtores, fornecedores, transportadores, indústrias e consumidores.

O seguro rural é uma ferramenta essencial para reduzir essa vulnerabilidade. Ao proteger o investimento realizado no cultivo, ele contribui para que o produtor tenha condições de se recuperar e continuar produzindo após uma perda.

Mas o avanço dos riscos climáticos exige mais do que ampliar a contratação. Será necessário aperfeiçoar modelos de análise, utilizar dados meteorológicos cada vez mais precisos, desenvolver produtos adequados às culturas e regiões e fortalecer políticas que tornem a proteção acessível a produtores de diferentes portes.

O corretor como agente de prevenção

Diante desse cenário, o papel do corretor de seguros ganha ainda mais relevância. Cabe a nós ajudar famílias e empresários a enxergarem riscos que nem sempre são evidentes, explicar as diferenças entre as coberturas e revisar periodicamente os contratos.

Uma apólice contratada anos atrás pode já não refletir o valor atual do patrimônio, as mudanças na operação da empresa ou a nova exposição climática da região. A revisão não deve acontecer apenas na renovação automática. Ela precisa envolver perguntas, atualização de valores, análise do local e entendimento das possíveis consequências de uma interrupção.

Também precisamos deixar claro que nenhum seguro cobre indistintamente todos os eventos. Informação transparente evita falsas expectativas e permite que o cliente tome decisões mais conscientes.

As mudanças climáticas não são uma discussão distante nem um assunto restrito à política ambiental. Elas já afetam casas, empresas, lavouras, empregos e a economia. O desafio do mercado de seguros é transformar essa percepção em prevenção, desenvolver soluções compatíveis com os novos riscos e ampliar o acesso à proteção.

Não podemos esperar pela próxima enchente, seca ou tempestade para reconhecer o valor do seguro. Em um cenário no qual o risco mudou de endereço, proteger o patrimônio deixou de ser uma escolha para o futuro. Tornou-se uma necessidade do presente.