O seguro residencial vem conquistando espaço no mercado de seguros brasileiro. Impulsionado pela maior preocupação das famílias com a proteção do patrimônio, pelo aumento dos eventos climáticos e pela variedade de serviços oferecidos nas apólices, o ramo acumulou crescimento de 49,2% entre 2022 e 2025. Nesse período, os prêmios emitidos avançaram de R$ 4,48 bilhões para R$ 6,66 bilhões.
A trajetória positiva continuou em 2026. Somente no primeiro trimestre, o segmento movimentou R$ 1,73 bilhão, alta de 10,5% sobre o mesmo período do ano anterior e o maior volume já registrado para os três primeiros meses de um ano, segundo dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep). O residencial já corresponde a aproximadamente 5% da arrecadação dos seguros de Danos e Responsabilidades, considerando os resultados de 2025.
Apesar da evolução, a penetração ainda é baixa diante do tamanho do mercado potencial. Estimativas divulgadas pelo setor indicam que somente cerca de 17% das residências brasileiras possuem seguro. O cenário reúne, portanto, duas características importantes para os corretores: um produto em expansão e uma ampla base de consumidores que ainda não conta com essa proteção.
Além das coberturas contra incêndio, explosão, danos elétricos, roubo, vendaval e outros prejuízos previstos em contrato, o seguro residencial passou a fazer parte da rotina dos consumidores por meio das assistências. Serviços como chaveiro, encanador, eletricista, vidraceiro e reparo de eletrodomésticos ajudam a tornar o produto mais tangível e facilitam a demonstração de seu valor.
Para o corretor, essa combinação abre oportunidades de diversificação da carteira, relacionamento frequente e venda cruzada. Clientes de automóvel, vida, empresarial, condomínio ou previdência, por exemplo, podem ser abordados para uma análise mais ampla das necessidades de proteção da família.
Pesquisa mostra percepção positiva dos corretores
A qualidade dos produtos e serviços oferecidos pelas seguradoras foi analisada na primeira edição da PMC Residencial – Pesquisa para Melhoria Contínua do Mercado de Seguros, realizada pelo Sincor-SP. O levantamento ouviu 1.216 corretores, pessoas físicas e jurídicas, distribuídos por todas as Regionais da entidade no Estado de São Paulo.
Como cada participante poderia avaliar até seis companhias com as quais trabalha regularmente, foram registradas 5.287 avaliações referentes a 28 seguradoras. Na média, cada corretora declarou operar com 4,3 companhias no ramo. A pesquisa alcançou nível de confiança de 95%, com margem de erro de 2,7%.
O estudo não divulga um ranking. Os resultados individuais foram entregues de forma confidencial às seguradoras, enquanto o relatório público apresenta somente a avaliação consolidada do mercado.
De acordo com o consultor de Economia e responsável técnico pela pesquisa, Francisco Galiza, o objetivo é transformar a experiência cotidiana dos corretores em informações que possam orientar melhorias. “A ideia é que os corretores possam avaliar, de forma objetiva e tranquila, a atuação das seguradoras em ramos específicos. O objetivo é que esse seja um elemento de planejamento estratégico das companhias, para que elas possam melhorar o atendimento aos corretores”, afirma.
Coberturas são o principal destaque
As coberturas básicas obtiveram a melhor avaliação entre os oito critérios analisados. Para 46% dos corretores, elas são excelentes, enquanto 47% as classificaram como boas. Somadas, as avaliações positivas chegaram a 93%.
As coberturas acessórias também apresentaram resultado expressivo: 35% de avaliações excelentes e 57% boas, totalizando 92%. O desempenho indica que, na percepção dos corretores, as apólices disponíveis oferecem um conjunto consistente de proteções e possibilidades de personalização.
A agilidade nas cotações alcançou 88% de avaliações positivas, sendo considerada excelente por 39% dos participantes e boa por 49%. O comissionamento oferecido pelas seguradoras recebeu aprovação de 89%.
Para o presidente do Sincor-SP, Boris Ber, o volume de respostas dá consistência ao levantamento e permite apresentar às seguradoras, de maneira estruturada, situações observadas pelos corretores no atendimento aos clientes. Segundo ele, os dados ajudam as companhias a identificar pontos de atrito, aperfeiçoar os produtos e melhorar a experiência de corretores e segurados.
Assistências e aplicativos exigem atenção
Embora o resultado geral tenha sido positivo, a pesquisa identificou oportunidades de evolução principalmente na qualidade da assistência residencial e dos aplicativos.
A assistência foi considerada excelente por 20% dos participantes e boa por 51%. Outros 24% a avaliaram como regular e 5%, como ruim. Assim, 29% das respostas ficaram nas duas faixas inferiores de avaliação.
No caso dos aplicativos, 16% das avaliações foram excelentes e 56% boas. A classificação regular foi escolhida por 23% dos corretores e a ruim, por 5%, somando 28% de avaliações menos favoráveis.
O resultado merece atenção porque a assistência é um dos principais elementos de percepção de valor do seguro residencial. Embora ocorrências como incêndios, vendavais e roubos representem a função central de proteção patrimonial, são os serviços utilizados no cotidiano que mantêm o cliente em contato mais frequente com o produto.
Falhas na disponibilidade de prestadores, demora no atendimento ou dificuldade para solicitar o serviço podem afetar diretamente a experiência do segurado — e também a relação entre o cliente e o corretor que recomendou a apólice. Por isso, qualificação, capilaridade e acompanhamento das redes credenciadas são pontos relevantes para o desenvolvimento do ramo.
Os aplicativos também ganham importância à medida que consumidores esperam jornadas mais simples para consultar coberturas, acionar assistências, acompanhar sinistros e acessar documentos. Para as seguradoras, melhorar esses canais pode reduzir atritos operacionais. Para o corretor, a tecnologia deve complementar, e não substituir, o atendimento consultivo.
Indenizações têm avaliação melhor do que no seguro auto
A rapidez nas indenizações recebeu 80% de avaliações positivas, divididas entre 23% excelentes e 57% boas. Outros 18% classificaram o critério como regular e 2%, como ruim.
Galiza observa que o resultado difere daquele encontrado na PMC Auto, realizada em 2025, na qual a liquidação de sinistros apareceu como o aspecto mais criticado. No seguro residencial, embora ainda exista espaço para evolução, a percepção dos corretores sobre a velocidade das indenizações é predominantemente favorável.
Já o atendimento comercial prestado ao corretor foi considerado excelente por 34% e bom por 44%, alcançando 78% de avaliações positivas. Para 18%, o atendimento é regular, enquanto 4% o classificaram como ruim.
Produto favorece atuação consultiva
O avanço do seguro residencial reforça a importância de uma abordagem que vá além da oferta de preço. O corretor pode ajudar o cliente a dimensionar corretamente o valor do imóvel e do conteúdo, identificar os riscos da região e selecionar coberturas compatíveis com o perfil da residência.
Também cabe ao profissional explicar limites, franquias, exclusões e diferenças entre as assistências. Uma apólice básica pode não contemplar, automaticamente, todos os riscos aos quais o imóvel está exposto. Danos elétricos, vendaval, roubo de bens, responsabilidade civil familiar, perda ou pagamento de aluguel e quebra de vidros, por exemplo, podem depender da contratação de garantias adicionais.
A revisão periódica é igualmente importante. Reformas, aquisição de móveis e equipamentos, instalação de sistemas de energia solar ou mudanças na utilização do imóvel podem alterar o risco e tornar os valores originalmente contratados insuficientes.
Com a expansão dos eventos climáticos e a maior frequência de tempestades, granizo, vendavais e alagamentos em diferentes regiões do país, a orientação do corretor ganha ainda mais relevância. Nem toda apólice cobre todos esses fenômenos, e a análise das condições contratuais é indispensável para evitar expectativas equivocadas.
O ramo residencial reúne, assim, características favoráveis à atuação consultiva: tem custo geralmente acessível, oferece proteções e serviços facilmente relacionados ao cotidiano e ainda apresenta baixa penetração. Para as corretoras, pode representar uma porta de entrada para novos clientes, uma oportunidade de ampliar a carteira e um instrumento de fidelização.
Os resultados da PMC mostram que as bases do produto são bem avaliadas, principalmente em coberturas e cotação. O próximo passo para o mercado será melhorar a experiência nos pontos mais sensíveis, especialmente nas assistências e nos canais digitais. Quanto mais simples e eficiente for a jornada do segurado, maior tende a ser a percepção de valor — e mais espaço o seguro residencial terá para crescer.
O relatório completo da PMC Residencial 2026 está disponível no site do Sincor-SP. Os dados de evolução do ramo foram baseados nas estatísticas da Susep e no levantamento sobre o desempenho do seguro residencial entre 2022 e 2026.
