O começo de 2026 traz à tona um tema que deixou de ser periférico para ocupar o centro das discussões no mundo do trabalho: a saúde mental. A campanha Janeiro Branco, dedicada à conscientização sobre o cuidado emocional, ganha ainda mais relevância diante do aumento dos casos de ansiedade, depressão e burnout entre trabalhadores brasileiros.
De acordo com uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Pesquisa Ideia, em parceria com a PiniOn e a Cause, a palavra “ansiedade” foi eleita por 22% dos entrevistados como a que melhor definiu o ano de 2024. O dado revela um sentimento coletivo que atravessa a vida pessoal e se reflete diretamente no ambiente corporativo, influenciando desempenho, engajamento e relações de trabalho.
Estudos do Ministério da Saúde mostram que os transtornos de ansiedade atingem cerca de 9,3% da população brasileira, percentual superior à média mundial. A depressão afeta aproximadamente 12 milhões de pessoas no país, enquanto o suicídio figura entre as principais causas de morte entre jovens. No mercado de trabalho, esses números se traduzem em afastamentos prolongados, presenteísmo – quando o profissional está ativo, mas com desempenho reduzido – e aumento significativo dos custos operacionais.

Saúde mental deixa de ser pauta individual e ganha dimensão corporativa
Tradicionalmente associada a reflexões pessoais no início do ano, a campanha Janeiro Branco passou a ocupar espaço estratégico dentro das empresas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, depressão e ansiedade geram perdas globais de cerca de US$ 1 trilhão por ano em produtividade. No Brasil, os transtornos mentais já estão entre as principais causas de licenças médicas de longa duração.
Para especialistas, o cenário evidencia que a saúde emocional não pode mais ser tratada como um tema restrito ao indivíduo. “Quando a organização só olha para a saúde mental após o afastamento, ela já está lidando com o prejuízo. A prevenção reduz custos invisíveis e protege o desempenho do negócio”, avalia Rodrigo Araújo, CEO da Global Work.
Nesse contexto, o Janeiro Branco funciona como um ponto de partida para discussões mais amplas sobre prevenção, gestão de riscos psicossociais e sustentabilidade das organizações.
Investimento em prevenção e cultura de cuidado contínuo
Executivos de diferentes setores destacam que enfrentar o adoecimento emocional exige mais do que ações pontuais. É necessário estruturar políticas permanentes, integradas ao planejamento anual das empresas, com indicadores claros e acompanhamento contínuo.
Na Vetor Editora, referência em avaliação psicológica, o foco está na quebra do estigma. Para o CEO Ricardo Mattos, o medo do julgamento ainda impede muitos colaboradores de buscar ajuda. “É fundamental normalizar a conversa sobre saúde mental e reforçar que procurar apoio não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade consigo mesmo”, afirma.
A Progic, especializada em comunicação interna, aposta em estratégias de endomarketing para fortalecer a sensação de pertencimento e cuidado. Segundo a gerente de Comunicação Corporativa, Cleide Cavalcante, ambientes que valorizam a saúde integral tendem a registrar maior engajamento, redução da rotatividade e melhores resultados. “Cuidar das pessoas impacta diretamente a performance das organizações”, destaca.
Flexibilidade, acesso à terapia e liderança como exemplo
A Vittude, empresa especializada em programas corporativos de saúde mental, investe em políticas de flexibilidade e acesso facilitado ao suporte psicológico. A CEO Tatiana Pimenta explica que os colaboradores contam com subsídio para sessões de terapia e ações contínuas de psicoeducação. “Também avaliamos constantemente a eficácia das práticas por meio de pesquisas de satisfação e feedbacks diretos”, afirma.
Na Newa, consultoria focada na humanização do trabalho, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional é um dos pilares. Para a fundadora Carine Roos, a liderança tem papel central nesse processo. “Quando gestores dão o exemplo, respeitando pausas, descanso e férias, isso se reflete em equipes mais saudáveis”, diz.
A Humora, startup voltada ao bem-estar, incorporou o cuidado emocional desde o onboarding. A CEO Ana Júlia Kiss explica que os colaboradores passam por acompanhamento médico e participam de rotinas semanais de check-in e check-out emocional, permitindo identificar fragilidades e oferecer acolhimento de forma preventiva.
Já a Adeste, empresa líder em tecnologia e transformação de subprodutos de origem animal, desenvolve desde 2018 o programa Vida e Prazer de Viver. Segundo a CHRO Cristina Amorim, a iniciativa promove palestras, ações educativas e acesso facilitado à terapia. “Investir na saúde mental é essencial para o fortalecimento das pessoas e para a sustentabilidade do negócio”, afirma.
Do simbolismo do Janeiro Branco à gestão permanente
Especialistas alertam que o principal desafio das empresas é transformar o alerta do Janeiro Branco em prática contínua. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1, que passou a incluir oficialmente os riscos psicossociais nos programas de saúde e segurança do trabalho, reforça essa necessidade.
Entre as medidas que vêm ganhando espaço estão o monitoramento sistemático do absenteísmo, a capacitação de lideranças para lidar com questões emocionais, a integração entre saúde física e mental e o acesso contínuo a apoio psicológico. Pesquisas do Fórum Econômico Mundial indicam que cada dólar investido em saúde mental pode gerar retorno médio de quatro dólares em produtividade e redução de afastamentos.
Ao ampliar o debate e trazer dados econômicos e operacionais para o centro da discussão, o Janeiro Branco deixa de ser apenas uma campanha simbólica e passa a ser entendido como um elemento estratégico. O cuidado com a saúde mental se consolida, assim, como fator-chave de competitividade, sustentabilidade e responsabilidade social nas empresas brasileiras.