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De corretor para corretor

O problema é a seguradora… ou a forma como a gente se relaciona com ela?

Por que entender a cultura da seguradora muda o jogo do corretor

O problema é a seguradora… ou a forma como a gente se relaciona com ela?

Quando a gente fala de seguradora, quase sempre a conversa fica presa na janela do agora. Preço, aceitação, sistema, sinistro. E essa janela é importante, claro, porque é o que a seguradora é hoje, no dia a dia, na prática. Mas se a gente fica só olhando por ela, a gente perde algo muito maior: o horizonte.

E isso vale pra tudo na vida. Pra pessoas, pra amizades, pra empresas. Quando a gente entende de onde alguém veio, o que viveu, o que moldou aquela história, a gente começa a compreender melhor atitudes, limites, decisões e até silêncios. Com seguradora é exatamente a mesma coisa.

Por isso eu resolvi olhar com mais calma para quatro das principais seguradoras que hoje atuam junto à Lojacorr Seguros, não pra dizer qual é melhor ou pior, mas pra entender cultura, história e identidade. Porque quanto mais a gente amplia a visão do agora para o horizonte, mais fácil fica lidar com o parceiro, saber que tipo de flexibilidade ele tem, que risco faz sentido colocar ali, que tipo de negócio dá pra propor e que tipo de parceria é possível construir.

A Allianz, por exemplo, é aquela seguradora que naturalmente ocupa o lugar da liderança. Ela se comporta como quem governa o próprio território. Desde a união com o grupo AGF, lá atrás, isso ficou muito claro. Sistema simples, processo direto, pouco espaço para exceção. A Allianz acredita que segurança vem de regra bem feita e de um modelo que não muda a cada vento. Por isso o sistema é intuitivo e simples, com coberturas pré‑estabelecidas em blocos, sem muitas opções de moldar. A lógica é clara: existem caminhos definidos, poucas escolhas e decisões já tomadas pela própria seguradora. A cobrança é automática, a proposta transmitiu, cobrou. Não tem muita conversa, nem muita reanálise. E quando ela adquiriu a operação de Auto da SulAmérica, isso ficou ainda mais evidente. Não houve fusão cultural, não houve preservação do jeito SulAmérica de operar. Houve aplicação do modelo Allianz por cima. Ela não dilui cultura, ela sustenta a própria. E faz isso amparada em conhecimento, experiência global e previsibilidade. É uma seguradora que passa segurança não pelo afeto, mas pela autoridade do sistema. Quem entende isso, sofre menos e trabalha melhor com ela.

A HDI já se coloca de outro jeito. Também alemã na origem, mas muito mais aberta a se moldar ao ambiente onde está. Desde que chegou ao Brasil, ela permitiu e incorporou o jeito local na forma de operar. A HDI sempre trabalhou com muita autonomia local, adaptando as diretrizes globais do grupo alemão Talanx à realidade brasileira, sem perder governança nem identidade técnica. Mais conversa, mais análise de contexto, mais decisão humana. A HDI sempre teve essa postura de estar perto, de funcionar, de resolver. Ela cuida fazendo acontecer. Isso explica por que absorveu a cultura brasileira e, mais recentemente, permitiu a entrada da cultura americana da Liberty. A Liberty não foi apagada, foi incorporada e deu origem à Yelum, mantendo identidade própria. A HDI acredita que cultura pode evoluir sem perder governança. Ela passa a sensação de proteção próxima, acessível, prática. Funciona muito bem quando o risco está bem apresentado e quando o corretor entende que ali a relação pesa tanto quanto o processo.

A Tokio Marine é um caso à parte. A cultura japonesa não entra aos poucos, ela atravessa tudo. Quando a Tokio se associa ao Santander, ainda como Real Tokio Marine, ela une solidez financeira com uma cultura extremamente forte de ética, respeito e melhoria contínua. Isso não é discurso bonito, é prática diária. Do backoffice ao diretor nacional, existe um alinhamento que impressiona. Eles nunca estão satisfeitos, estão sempre buscando melhorar. Kaizen puro. Mas isso não significa aceitar qualquer risco. Pelo contrário. A Tokio tem um portfólio amplo, mas é criteriosa e cuidadosa com o risco que coloca para dentro. Ela cuida, mas cuida com consciência. Protege porque sabe o que está fazendo. Ela não tem medo do risco em si, ela tem receio do risco mal enquadrado, mal entendido e mal posicionado desde a origem. Ser correto, para eles, não é diferencial. É o mínimo. E isso se reflete tanto no que ela entrega quanto no que ela cobra de quem caminha junto.

O Bradesco vem de outro lugar. Ele nasce banco e pensa seguro como banco pensa risco. Decisão centralizada, cautela, estrutura pesada. Já foi mais difícil de lidar, hoje passa por uma fase de mudança positiva, mas o DNA bancário continua ali. Em compensação, tem algo que poucas seguradoras têm: musculatura e capacidade de aceitar riscos que o mercado normalmente evita. O Bradesco se coloca como aquele parceiro que quer estar junto, que diz “com você, sempre”. Às vezes mais lento, às vezes mais duro, mas presente. Ele não quer ser o mais inovador, quer ser o mais confiável no longo prazo, aquele que sustenta quando o cenário aperta.

Quando a gente olha pra tudo isso, fica claro que cada seguradora carrega um jeito muito próprio de proteger. No marketing, isso tem nome: arquétipo. E arquétipo não muda. O que muda é a forma de comunicar. A essência permanece. A Allianz continua sendo a do sistema e da liderança. A HDI, a do cuidado prático e da adaptação. A Tokio, a do cuidado consciente, ético e em constante evolução. O Bradesco, a da presença constante e da força financeira. O discurso pode evoluir, a comunicação pode se modernizar, mas o jeito de ser continua ali.

E é por isso que olhar só a janela do agora é pouco. Ela mostra quem a seguradora é hoje. Mas olhar o horizonte mostra por que ela é assim. E quando a gente entende isso, trabalhar fica mais fácil, a frustração diminui e a parceria fica mais inteligente.

No fim, não existe seguradora perfeita. Existe seguradora coerente com sua história, sua cultura e seu jeito de proteger. E quando a gente aprende a enxergar isso, passa a jogar o jogo certo com cada parceiro.