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De corretor para corretor

And the Oscar goes to… Ou melhor dizendo: Oxente, meu véi… o Oscar vai pra…

Tu, corretor que transformou tua história em identidade

And the Oscar goes to… Ou melhor dizendo: Oxente, meu véi… o Oscar vai pra…

No próximo domingo, dia 15, acontecerá a maior premiação do cinema mundial, o Oscar, e entre os filmes mais comentados do ano está O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e filmado na minha cidade, Recife. Quando assisti ao filme, tive uma sensação que talvez só quem é daqui consiga explicar direito. Eu não estava apenas vendo uma história bem construída na tela. Eu estava vendo lugares que fazem parte da minha própria vida. As ruas, as pontes, o Cinema São Luiz, cantos do centro da cidade que já atravessei tantas vezes sem imaginar que um dia estariam retratados num filme que corre o mundo. Aquilo cria uma conexão imediata. A gente não assiste apenas com os olhos; assiste com memória, com lembrança, com pertencimento. E talvez esteja aí um dos grandes trunfos do filme. Não é só um filme bem produzido — ele é profundamente verdadeiro.

O Recife que aparece em O Agente Secreto não é um cenário decorativo. Ele não está ali apenas para “ambientar” a história. A cidade aparece quase como um personagem vivo. O filme mostra a fotografia das ruas, mas mostra também os causos, as lendas, o jeito das pessoas, as conversas, a cultura que pulsa nas esquinas. É aquele Recife que quem é daqui reconhece de imediato. E curiosamente, antes mesmo do lançamento, algumas críticas começaram a surgir dizendo que o diretor era “regional demais”. E foi justamente aí que me veio uma pergunta que vai muito além do cinema: desde quando ser regional virou problema? Desde quando ser quem a gente é virou algo que precisa ser corrigido?

Durante muito tempo no Brasil existiu a ideia de que, para alcançar o grande público, era preciso neutralizar as diferenças. A televisão brasileira viveu décadas exigindo o chamado “sotaque neutro”. Um modelo de fala que eliminava as marcas regionais para padronizar a comunicação nacional. Na teoria, parecia algo democrático. Na prática, acabava apagando identidades. Pessoas precisavam aprender a falar diferente de como falavam em casa. Precisavam suavizar suas origens para caber dentro de um padrão que, curiosamente, não era neutro coisa nenhuma — era apenas o sotaque do eixo que se tornou referência para todo mundo.

E o curioso é que o tempo começa a virar esse jogo. Wagner Moura, que protagoniza o filme, já contou que no início da carreira também precisou suavizar o sotaque baiano para conseguir trabalhar na televisão. Era quase uma exigência implícita. Mas anos depois, quando começou a trabalhar internacionalmente, sugeriram que ele adotasse um sotaque americano padrão. Dessa vez ele recusou. Disse que era um ator brasileiro e que representava pessoas que falam como ele fala. O resultado é curioso e bonito de ver: aquilo que um dia precisou ser escondido hoje virou justamente parte da identidade que desperta interesse lá fora. O mundo quer ver o que é verdadeiro. O mundo quer ver o que é diferente. O mundo quer ver aquilo que tem raiz.

E aí, inevitavelmente, eu começo a fazer um paralelo com o nosso próprio mercado. Porque o mercado de seguros também criou o seu “sotaque neutro”. A gente vê campanhas inteiras pensadas em São Paulo que chegam exatamente iguais em Recife, Manaus, Fortaleza ou Belém. Materiais que falam com um Brasil genérico, como se o país fosse uma coisa só. Só que o Brasil nunca foi uma coisa só. O Brasil é plural, cheio de nuances, cheio de sotaques, cheio de histórias diferentes convivendo ao mesmo tempo. Quando a comunicação ignora isso, algo importante se perde no caminho: o pertencimento. E pertencimento é uma coisa poderosa. Ele gera identificação, gera autoestima, gera a sensação de que aquilo também é para você.

Talvez não seja coincidência que o Norte e o Nordeste representem uma fatia enorme da população brasileira e, ainda assim, tenham uma participação muito menor no mercado de seguros em comparação com o Sudeste. Claro que existem fatores econômicos envolvidos, isso é evidente. Mas também vale perguntar: quantas pessoas realmente se veem dentro da comunicação do nosso mercado? Quantas vezes as histórias que aparecem nas campanhas parecem distantes da realidade de quem vive aqui? Porque no fim das contas as pessoas se conectam com histórias. Histórias de verdade. Histórias de gente comum. Histórias de famílias que enfrentaram dificuldades e conseguiram se reconstruir. O seguro sempre foi, no fundo, sobre histórias humanas. Só que muitas vezes a gente esquece de contá-las.

Outra coisa que chama atenção em O Agente Secreto é que, apesar de ser profundamente local, ele fala de muitos Brasis ao mesmo tempo. O elenco mistura atores de diferentes regiões, diferentes trajetórias, diferentes realidades. A narrativa aborda desigualdade, preconceito, relações de poder, personagens simples e personagens complexos. É quase como se o filme dissesse que o Brasil é um mosaico — várias realidades convivendo dentro de um mesmo país. E talvez o mercado ainda esteja aprendendo a enxergar esse mosaico com mais atenção.

O próprio diretor do filme ajuda a explicar por que essa história soa tão verdadeira. Kleber Mendonça Filho é pernambucano. Cresceu em Recife. Viveu a cidade. Estudou a história dela. Conhece os detalhes que quem vem de fora dificilmente perceberia. Ele tem aquilo que hoje se fala muito: lugar de fala. E isso faz diferença. Porque quando alguém fala de algo que realmente conhece, a narrativa ganha densidade, ganha autenticidade, ganha alma.

No mercado de seguros, quem tem esse lugar de fala é o corretor. É ele que conhece o bairro, que conhece o cliente, que entende os riscos da região, que escuta as histórias das pessoas no dia a dia. Nenhuma grande estrutura nacional consegue replicar essa proximidade. Nenhum material institucional consegue substituir a experiência de quem vive o território de verdade. O corretor carrega algo que é raro e valioso: contexto.

Talvez seja por isso que O Agente Secreto desperta tanto interesse mundo afora. Porque quando uma história é profundamente local, paradoxalmente ela se torna universal. Quanto mais verdadeira ela é, mais ela toca pessoas de lugares completamente diferentes.

No fim das contas, talvez a grande provocação que esse filme traz para todos nós seja simples. Durante muito tempo tentaram convencer muita gente de que o caminho para ser levado a sério era falar com um sotaque neutro, agir de forma padronizada, parecer com todo mundo. Só que cada vez mais o mundo mostra exatamente o contrário. O que realmente chama atenção é aquilo que tem identidade. Aquilo que tem raiz. Aquilo que tem verdade.

Talvez esteja na hora de o mercado de seguros perceber a mesma coisa.

Porque, no fundo, o Brasil nunca foi neutro.

O Brasil sempre falou com sotaque.

E ainda bem.