Hoje, aqui em Pernambuco, a gente celebra uma data que dá muito orgulho para quem é daqui: a Data Magna, que marca a Revolução Pernambucana de 1817. Foi naquele momento que Pernambuco viveu algo ousado para a época. Mesmo que por pouco tempo, a província rompeu com o domínio português e se declarou independente. Por cerca de 75 dias existiu ali uma república pernambucana. Pode parecer pouco tempo quando a gente olha apenas para o calendário, mas o significado daquele movimento foi muito maior do que a sua duração. Muitos historiadores consideram aquele episódio como um dos primeiros sinais do que viria alguns anos depois: a independência do Brasil em 1822. Ou seja, mesmo tendo durado pouco, aquele grito de independência ecoou e deixou uma marca histórica.
Sempre que penso nessa história, inevitavelmente acabo fazendo um paralelo com o nosso mercado de seguros. Porque existe uma força muito grande dentro do mercado que tenta empurrar todos os corretores para o mesmo lugar. O mesmo modelo de venda, o mesmo tipo de atendimento, o mesmo tipo de pensamento e, muitas vezes, até o mesmo tipo de posicionamento profissional. É o famoso efeito manada, aquela tendência natural de repetir o que todo mundo já está fazendo, quase como se existisse um roteiro único de como um corretor deve trabalhar.
Mas eu, particularmente, sempre tive dificuldade de acreditar que esse é o único caminho possível. Na verdade, acredito muito mais em um mercado heterogêneo, formado por profissionais diferentes, com visões diferentes, modelos de negócio diferentes e formas distintas de gerar valor para seus clientes. Cada corretor tem sua história, seu território de atuação, sua carteira de clientes, sua forma própria de se relacionar com as pessoas e de enxergar o negócio. Por isso, sempre me pareceu estranho imaginar que todos precisam trabalhar exatamente da mesma maneira.
Talvez por isso eu acredite tanto na independência do corretor. Independência para pensar, para testar caminhos diferentes, para adaptar ideias à sua própria realidade e, principalmente, para construir um modelo de atuação que faça sentido para o seu contexto. Recentemente eu estava lendo um livro chamado Roube como um Artista, que traz uma reflexão interessante sobre inovação. O autor diz que praticamente nada surge totalmente do zero. O que chamamos de inovação quase sempre é uma evolução de ideias que já existiam. A gente observa algo, aprende com aquilo, adapta para a nossa realidade e, a partir desse processo, cria algo novo.
No mercado de seguros, a gente vê muita inovação acontecendo do lado das seguradoras. Novas insurtechs surgindo, tecnologia avançando, modelos mais digitais aparecendo. Mas, quando olhamos para o lado do corretor, ainda vemos um mercado que em muitos aspectos continua bastante analógico. E isso cria um desafio interessante, porque muitas vezes o mercado acaba entregando tudo pronto, como se fosse o peixe servido no prato, quando o mais importante talvez fosse ensinar a pescar. E a verdade é que, em alguns momentos, nós mesmos também nos acostumamos com essa facilidade.
O problema é que facilidade demais pode ter um efeito colateral perigoso: ela pode diminuir a nossa vontade de evoluir. Certa vez ouvi uma reflexão do pernambucano Silvio Meira que ficou muito marcada na minha cabeça. Ele dizia que muitos empresários vivem apenas no presente. Operam o dia a dia, resolvem os problemas imediatos, mas raramente param para construir uma teoria sobre o próprio negócio. Não refletem profundamente sobre o seu modelo, não pensam em cenários futuros e não tentam imaginar como o mercado pode evoluir. Vivem no automático.
Talvez seja justamente aí que entra a inspiração da Data Magna. A Revolução Pernambucana de 1817 durou pouco, mas deixou uma marca profunda na história. Mostrou que alguém, em algum momento, teve a coragem de tentar fazer diferente. Nem toda tentativa de independência dá certo de imediato. Mas cada tentativa deixa sementes. Ideias se espalham, caminhos se abrem e aquilo que parecia impossível começa a se tornar possível.
Talvez o corretor de seguros também precise viver, em algum momento da sua trajetória profissional, a sua própria Data Magna. O momento em que decide deixar de seguir simplesmente o fluxo do mercado e passa a construir o seu próprio caminho. Não é fácil. Muitas vezes o próprio mercado tenta puxar você de volta para o padrão. Às vezes dá a sensação de estar andando contra a corrente. Outras vezes você se sente deslocado, como se estivesse tentando algo que ninguém ao seu redor está tentando.
Mas, ainda assim, eu acredito muito nesse caminho. No caminho de pensar diferente, de fazer diferente e de construir sua própria forma de atuar. Porque, no final das contas, é assim que as histórias são escritas. Pernambuco tentou — e hoje essa tentativa faz parte da nossa identidade. Talvez o corretor também precise ter coragem de tentar escrever a sua própria história.