A ideia de que o planejamento financeiro se encerra aos 60 anos está se tornando rapidamente obsoleta. Em um mundo onde viver até os 90 ou 100 anos deixa de ser exceção, a discussão já não se limita a acumular patrimônio para a aposentadoria, mas a garantir que esse capital seja capaz de sustentar uma vida longa, ativa e financeiramente resiliente por décadas além do fim da carreira tradicional.
Essa mudança de paradigma está no centro do estudo Living Longer, Better: Understanding Longevity Literacy, publicado em 2023 pelo World Economic Forum, em parceria com a Mercer. O relatório introduz o conceito de alfabetização em longevidade, defendendo que viver mais exige muito mais do que educação financeira clássica. “Longevity literacy empowers individuals to live a healthy and sustainable life with dignity and purpose, while building resilience to address the challenges of an evolving world”, afirma o documento.
Os dados ajudam a dimensionar a magnitude do desafio. A expectativa de vida global saltou de cerca de 48 anos em 1950 para mais de 73 anos em 2019, e a projeção das Nações Unidas é que esse indicador continue avançando ao longo do século. O estudo destaca que pessoas em todo o mundo estão vivendo, em média, duas a três décadas a mais do que gerações anteriores, o que altera profundamente a lógica de trabalho, poupança, consumo e proteção financeira.
Na prática, isso significa que muitos indivíduos precisarão financiar uma aposentadoria que pode durar 25 ou até 30 anos — um horizonte muito superior ao considerado pelas tabelas atuariais tradicionais. O problema é que o comportamento financeiro não acompanhou essa transformação demográfica. Segundo o levantamento, 55% dos entrevistados afirmam não ter poupado o suficiente para a aposentadoria ou sequer saber se pouparam o necessário, evidenciando um descompasso entre a maior longevidade e o preparo financeiro efetivo.
Além da dimensão financeira, o relatório chama atenção para fatores frequentemente negligenciados nos modelos tradicionais de planejamento. Saúde aparece como a principal preocupação associada ao envelhecimento, citada por 43% dos respondentes. O medo de doenças, do declínio físico e cognitivo e da perda de autonomia surge de forma recorrente. Como resume o estudo, “people do not just want to live longer, they want to live longer better”, reforçando que longevidade sem qualidade de vida não representa, necessariamente, progresso.
Outro ponto sensível é o impacto da longevidade sobre as relações familiares. Dois terços dos participantes acreditam que precisarão cuidar de parentes idosos no futuro, e mais de um terço espera ter de oferecer apoio financeiro direto a familiares mais velhos. O relatório observa que esse movimento pode inverter a lógica histórica do chamado “Banco do Pai e da Mãe”, ampliando a pressão econômica sobre as gerações mais jovens e redesenhando o papel das famílias no suporte à velhice.
Diante desse cenário, o Fórum Econômico Mundial propõe que a alfabetização em longevidade se sustente em três pilares indissociáveis: qualidade de vida, propósito e resiliência financeira. Não se trata apenas de poupar mais cedo ou investir melhor, mas de repensar trajetórias profissionais, estimular o aprendizado contínuo, manter vínculos sociais e criar fontes de renda mais flexíveis ao longo da vida. O relatório é enfático ao afirmar que, para prosperar em uma vida potencialmente centenária, os indivíduos precisam ir além da alfabetização financeira tradicional.
No Brasil, esse debate começa a ganhar espaço também no mercado de seguros. Seguradoras já discutem e estruturam produtos que incorporam explicitamente o aumento da longevidade, como seguros de vida com possibilidade de resgate em vida para despesas médicas e cuidados prolongados, além de novos modelos de renda e anuidades voltados à chamada economia prateada — um segmento que movimenta bilhões de reais e tende a crescer de forma consistente nos próximos anos.
Esse movimento reposiciona o papel do seguro e da previdência privada. De instrumentos voltados apenas ao fim da carreira, passam a integrar uma estratégia financeira contínua, que acompanha o indivíduo ao longo de múltiplas fases da vida. Como destaca o relatório, o modelo linear de “estudar, trabalhar e se aposentar” está sendo substituído por uma vida em múltiplos estágios, com períodos de requalificação, trabalho prolongado e novas ocupações na maturidade.
A mensagem final é clara: em um mundo que caminha para a vida centenária, planejar apenas até os 60 anos deixou de ser suficiente. Para indivíduos, empresas e formuladores de políticas públicas, a alfabetização em longevidade deixa de ser uma tendência futura e se consolida como uma condição essencial para garantir segurança financeira, autonomia e dignidade ao longo de uma vida cada vez mais longa.