Essa semana eu li uma reportagem que me chamou muita atenção: a Anatel decretou oficialmente o fim do orelhão no Brasil. Os poucos que ainda estavam em funcionamento serão retirados. Um símbolo que, durante décadas, foi essencial para a comunicação de milhões de brasileiros, agora passa a existir apenas na memória.
Teve uma época em que o telefone fixo residencial era artigo de luxo. Aqui em Recife, por exemplo, muita gente lembra da Telpe, e lembra também que, para ter uma linha em casa, não era só pagar a instalação. Compravam-se ações da operadora. Era caro, burocrático e distante da realidade de muita gente. Nesse contexto, o orelhão não era só um equipamento urbano: era ponte, era acesso, era inclusão.
Havia um ritual. Ir até o orelhão para falar com parentes, combinar encontros, resolver coisas importantes. Ele estava espalhado por todo canto. No seu auge, o Brasil chegou a ter mais de 1,2 milhão a 1,5 milhão de orelhões instalados em todo o país. Aquilo funcionava porque atendia perfeitamente à necessidade daquele momento histórico.
Depois vieram as privatizações, a concorrência, a expansão da telefonia. O telefone fixo se popularizou, ficou mais acessível, e aos poucos o orelhão começou a perder espaço. Até que chegou o celular. E aí não foi só uma mudança de formato, foi uma mudança de lógica. O telefone continuava fazendo ligações, mas passou a fazer muito mais do que isso. Mensagens, vídeo, aplicativos, mobilidade, versatilidade. A ligação, que antes era o centro da comunicação, virou apenas uma das opções.
Hoje as pessoas se comunicam de várias formas. Muitas vezes preferem mensagem a ligação. Outras vezes vídeo. Outras, áudio. O meio evoluiu, mas a essência continuou sendo a mesma: comunicar.
E é aí que essa história começa a conversar diretamente com a nossa realidade como corretores de seguros.
O mercado de seguros está passando por uma transformação muito parecida com aquela vivida pela telefonia lá atrás. Novas seguradoras estão entrando, extremamente tecnológicas, digitais, rápidas, com processos mais simples e novas formas de relacionamento. É um movimento que lembra muito o início da concorrência no setor de telecomunicações após as privatizações.
A corretagem vai continuar existindo. Assim como a comunicação por voz continua existindo. O que muda é o meio, a forma, a experiência.
Se o corretor se comportar como um orelhão — estático, engessado, esperando que o cliente venha até ele, usando sempre o mesmo formato, o mesmo discurso, os mesmos canais — corre o risco de se tornar obsoleto. Não porque deixou de ser importante, mas porque parou no tempo.
O problema nunca foi o orelhão em si. O problema foi ele não conseguir acompanhar a evolução da forma como as pessoas se comunicam.
O corretor de seguros hoje precisa entender como o cliente se comporta, como ele prefere conversar, em que canal ele está, o que ele espera de uma relação comercial. Não dá para acreditar que só porque algo deu certo no passado, continuará funcionando do mesmo jeito para sempre. O mundo muda. O mercado muda. O cliente muda.
A forma de fazer evolui. E quem não acompanha essa evolução acaba ficando para trás.
No fim das contas, o mercado funciona como um processo de seleção natural. Ele não elimina quem é ruim. Ele elimina quem não se adapta. E premia quem consegue entender as mudanças mais rápido, ajustar a rota e evoluir junto.
O corretor que entende isso não vira orelhão. Vira smartphone. Continua comunicando, continua sendo essencial, mas com mais recursos, mais presença, mais valor e muito mais futuro.